quarta-feira, 31 de março de 2010

AS FLORES COR DE MARAVILHA DAS MARGENS DO RIBEIRÃO DO OURO



O que dizer das pequenas flores cor de maravilha? E ainda mais, que nasciam e viviam espalhadas e quase escondidas sob a ponte do Ribeirão do Ouro? Essas imagens jamais perderam a nitidez. As sensações que sentia em meu pequeno corpo e que se refletiam em meu espírito também jamais me abandonaram. Era um misto de prazer e incredulidade.

Engraçado... Não tinham perfume algum. Eram intocáveis também. Somente aquela cor exuberante, intrigante, que não era vermelho, nem roxo e nem carmim. Nem cor de rosa e nem branco, nem mesmo azul. Era cor de maravilha. Exatamente a cor que me deixava, menina de sete ou oito anos, maravilhada. Não é assim que se diz quando se fica extasiada, perplexa?

Cor de maravilha numa pequena flor, também chamada Maravilha. Um adjetivo que se transforma em substantivo, magicamente, sem qualquer explicação lógica.

Retornar pelo caminho das lembranças daquela rua de terra lá no início do bairro da Raia é apropriar-me novamente da mesma emoção de ser criança e deixar que ela tome direto o rumo do coração. Indescritível e inexplicável trajetória...

E então, de mansinho, voltam as cenas à minha memória... Nos fins de tarde, fossem os de inverno, de primavera, de verão ou mesmo os de outono, eu pedia a meu pai e minha mãe que me levassem até a ponte. Bastava dizer ponte, para saberem que era aquela, única, a do Ribeirão do Ouro. Bastava caminhar algumas poucas centenas de metros, virar aqui, ali, passar por um pequeno capão e pronto. Lá estava ela.

Debruçava-me no pequeno parapeito de tijolos encardidos e já quase desfeitos e me perdia a procurar as pequenas flores cor de maravilha, quase escondidas entre as folhagens que enfeitavam as margens do pequeno córrego.

Não tinham a exuberância da rosa, da orquídea ou de qualquer outra flor rara, mas a cor... Como explicar uma cor?
As flores eram miúdas e tão comuns... O formato era de uma pequena campânula presa numa haste, como a erguê-la, a mostrá-la, mas a quem, meu Deus?

Recordo-me da paciência extrema de meus pais, de seus olhares pousados em mim e nas pequenas flores, admirados com aquele efêmero momento de encantamento. Não havia nenhuma pressa para o retorno.
Deliciava-me. Meu pequeno universo e minha vida em seu começo ficavam coloridos de maravilha, das flores e de meus pais. Únicos naquele momento.
Sentia que podia alcançar e até tocar a plenitude, sentimento que me fez companhia em muitos outros momentos de minha vida.
O que dizer dessas pequenas flores, fincadas nos barrancos de um riacho, enfeitando suas margens, espelhando-se qual Narciso naquelas águas então cristalinas.
Corriam entre as pedras numa limpidez tamanha que me faziam sentir desejos de misturar-me a elas: às plantas, às pedras e às flores cor de maravilha...
Após o passeio, minha volta para casa era feita silenciosamente como se eu guardasse algum segredo ali revelado, retendo na memória as imagens e sensações que sabia serem únicas e minhas.
Conheci assim precocemente o significado do indevassável e misterioso mundo interno.
Não precisei jamais desvendá-lo. Apenas o vivi intensamente na emoção e agora, nas lembranças.

Ah! Minhas pequenas flores cor de maravilha das margens do Ribeirão do Ouro... Intocadas e intocáveis. Terão tido lembranças ao longo desses tantos anos? Que sentimentos as envolviam ao serem contempladas pelos olhares de uma criança lá do alto de uma velha ponte?

Como saber? Como dizer e a quem dizer que dolorosamente crescemos, nos distanciamos e nos perdemos. Eu, o Ribeirão do Ouro, sua pequena ponte já sem parapeitos e aquelas pequenas flores que um dia enfeitaram suas margens.

Onde estarão o cascalho da Rua da Raia e os pedriscos do leito daquele riacho? Em que dimensão de vida vivem meus pais que já não podem caminhar comigo de volta à ponte do pequeno ribeirão? Partiram e também com eles alguns mistérios, do tempo, da vida e da morte...
Teriam levado consigo a cor de maravilha para colorir tudo o que se parecer com a dor da ausência e da saudade?
Sabiamente me deixaram uma pequena chave, a guardiã dos segredos ainda não revelados. Com ela tenho celebrado os reencontros com minha infância e com a saudade. Incontáveis, infinitos ou efêmeros, mas coloridos com a maravilhosa cor das flores cor de maravilha das margens do Ribeirão do Ouro..

( Pirassununga, SP, minha querida cidade, meu lócus nascendi e por muitos anos meu lócus vivendi ).

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