sábado, 27 de março de 2010

A MOÇA DO 130



Às vezes fico em dúvida se meu pai era um homem ingênuo ou um primitivo das cavernas. Tinha total resistência a qualquer tipo de inovação. Foi trabalhador braçal, traçando no terreno uma geografia própria, com linhas sem fim para o plantio de sementes.
Trafegou por estradas poeirentas em lombo de cavalo e teve por longos anos, como teto de sua casa, as noites com céus estrelados. Com o chapéu de abas largas protegia-se do sol e com o longo poncho escondia seu corpo das durezas do frio e da chuva. Sua ingenuidade o fez dar um significado singular à vida. Assim, os relatos de suas histórias passaram a ser inverossímeis para quem os ouvisse. Para ele, nada mais do que revelação do que o mundo lhe ensinara...

O telefone, uma invenção inútil e por demais avançada nos conceitos de meu pai, foi por algum tempo, um objeto sem significado para ele. Um enfeite qualquer. Esse pequeno aparelho de cor cinza entrou em nossa casa pelas portas do fundo, sem ser convidado, lá pelo início dos anos 70, quando eu já havia concluído meus estudos superiores fora da cidade. Desdobrava-me para tentar comunicar-me com minha mãe, usuária do telefone da vizinha.

“Pra que telefone? Escreva cartas...” dizia-me ele.
E lá iam e vinham cartas... E nos intervalos, as rápidas conversas com minha mãe e com hora marcada no telefone de dona Amélia... Ah! não fossem os vizinhos... Discretos em presença, solícitos nas percepções e desvendadores de segredos sussurrados...

O tão anunciado plano de expansão deu-nos a possibilidade de romper a barreira dos “não precisa” e dos “pra quê” de meu pai. Não comprou e, portanto, não pagou. Também não deu a devida importância e sequer fez qualquer comentário sobre seu uso. Era apenas aquele objeto no canto da sala, que vez ou outra o acordava com toques estridentes. Telefone não era boi, vaca ou planta de plantação e, por essa razão, absolutamente não fazia parte de seu mundo.
De que mundo então?
“Dos que não têm o que fazer e ficam conversando conversa fiada...” retrucava.
E o tempo foi passando. Telefone de um lado e meu pai de outro. Estranhavam-se mutuamente em seu mutismo, nessas impossibilidades que se impuseram. Minha mãe tentou inutilmente aproximações. Pura ilusão, sabia ela:
“Orlando, telefone não é boi. Não chifra e nem dá coice... Venha aprender... É fácil falar e ouvir”.

Não dava resposta. Não argumentava. Despistava, procurando as chaves de seu velho companheiro, um Fusca 63, de cor azul céu. Com ele, sim estava em seu reino, o boi domado, o arado motorizado a romper os espaços das estradas por onde passara anos e anos tocando a boiada...

Até que... foi seduzido. Pela curiosidade, pelos amigos, pelo tempo e porque o telefone já nem representava tanta novidade assim... Acostumaram-se um com o outro. Não se estranhavam mais. E num determinado dia, anunciou-me solenemente uma novidade. Finalmente havia descoberto uma grande utilidade para o telefone.

“Filha, aqui em Pirassununga já tem uma novidade muito boa da companhia telefônica. Não sei se você já sabe, mas é só a gente discar cento e trinta - ele dizia cento e trinta, assim por extenso- e uma moça muito boazinha, muito educada atende, fala que é da Telesp e informa a hora, os minutos e diz a temperatura”.
Olhei para ele com muito interesse, querendo saber que caminhos iria percorrer, imaginando o que estaria por vir.

Filha, ela atende qualquer hora do dia ou da noite e é muito educada, mesmo. Fico até agradecido”.

“Pai, o senhor não agradece, assim, dizendo muito obrigado, não é?” disse-lhe.
“Eu digo, sim, obrigado, moça”.

Minha mãe e eu sequer trocamos olhares. Seria traí-lo. Mantivemo-nos impassíveis, ali na cozinha, ouvindo a continuação da conversa.
“Papai, mas é uma gravação...”.

Seu ar era de espanto e de incredulidade. Como duvidar? Ele estava ouvindo: hora, minuto e temperatura. E no dia certo. E em qualquer horário... E com uma voz feminina... Como poderia então ser uma gravação?
“Gravação?” - olhou-me incrédulo.
E concluiu a conversa:

“Só se for lá em Campinas, porque aqui em Pirassununga é a moça mesmo quem fala.”.
A conversa encerrou-se por aí. Não era preciso continuá-la. Desvendar esse mistério destruiria a certeza e as verdades absolutas de meu pai, tradução de seu mundo mágico, verossímil e palpável, sua maneira de ser de homem-caboclo, pegador de boi e caminheiro de estradas sem fim.

A moça do centro e trinta foi sua grande descoberta, sua secreta aliada no mundo da modernidade. Até o fim de seus dias...

Esta historia sobre meu pai foi selecionada pela Bandnewsfm, em agossto de 2009, para homenagear o Dia dos Pais. Sua leitura foi feita pelo jornalista Salomon Schvartzman.


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