segunda-feira, 29 de março de 2010

A PROFESSORA DE PIANO



O casarão de esquina da José Bonifácio com a Rua dos Leme era antigo, muito antigo mesmo. Pelas minhas contas de menina, mais do que centenário. Pertenceu a uma única família, a dos Almeida. Guardou invioláveis, seus segredos, tradições, ascensão e declínio.

O tempo de sua existência deixara, contudo, suas marcas: portas e janelas abriam-se com extrema dificuldade, a pintura antes amarelada das paredes já deixava notar o cinza encardido e depois os quase tijolos misturados às amarrações do pau a pique. O telhado arqueado pelo peso da idade adquirira a tonalidade verde musgo e abrigava um sem número de plantas-parasitas que nós crianças denominávamos de rabos de gato. Eram rajadas e empinadas.

No casarão viviam três pessoas que a vida e a morte talvez as tivessem esquecido: o velho, muito velho e rabugento Coronel Jeremias de Almeida e suas duas filhas, igualmente idosas: Judite, a mais velha e Nhazinha, caçula, a professora de piano. Pouco ou nada se ouvira falar da figura da esposa e da mãe.

A casa era indevassável, reservada somente para a família. Apenas uma grande sala que tomava toda a esquina era de nossa exclusividade, os alunos de piano. Um olhar infantil um pouco mais atento e bisbilhoteiro rompia o vai-e-vem da porta levando-nos aos labirintos do Casarão.
Pelo menos para minha imaginação infantil de sete anos de idade. Pensamento é assim: voa e não volta, mas deixa registros.
Conseguia ver o Coronel Jeremias sentado em sua cadeira de balanço, daquelas com encosto e assento de palhinhas trançadas e braços encaracolados, embalando a cada movimento cadenciado o ir-e-vir de seu corpo de homenzarrão que fora um dia. O cochilo incontrolável, no entanto, evidenciava sua velhice ou seria o seu passatempo predileto?

É um velho ranzinza, rabugento e não gosta de crianças”, dizia minha mãe ““.

Se verdade ou fantasia da vizinhança, virava tema de conversa aqui e ali. O título respeitadíssimo de Coronel fora um presente de algum amigo influente na política com poder maior que o seu. Sim, porque Coronel Jeremias sentia-se ainda um homem poderoso!

Seus cabelos eram brancos, fartos e seus bigodes arrumados para cima, para evitar que lhes caíssem sobre os lábios. A barba igualmente branca cobria parcialmente seu rosto, dando-lhe uma inquietante semelhança com as figuras lendárias dos imperadores.

Talvez julgasse mesmo ser um imperador em seus domínios: senhor da casa e de suas duas filhas. Governou com mão de ferro sua fortaleza, fazendo de suas duas súditas cultas e prendadas senhoritas no nome e no corpo. Verdadeiras relíquias...
Seu principal divertimento quando ainda se locomovia com facilidade, era fazer pequenas bolotas de barro, armazenando-as numa prateleira no imenso quintal de sua casa, uma ao lado da outra, como soldadinhos perfilados para a guerra.

Com uma arma primitiva nas mãos, o seu bodoque, um misto de arco como os usados pelos índios, utilizava as bolas em lugar das flechas. Esticava as cordas ensebadas presas à vara principal, fazia a mira, as soltavas rapidamente e lançava os arremedos de bala em algum alvo já definido: Zzzzssssaaaazzzzzsssss...

Lá iam voando pelos ares aqueles pequenos pontos escuros em direção aos urubus que se secavam ao sol, empoleirados sobre a cumeeira dos telhados das casas. Eram suas presas prediletas...
Diziam as faladeiras da vizinhança, ao espionarem pelos vãos dos muros e portões, que quando ele saía à caça de urubus, vestia sua longa capa preta que lhe cobria quase que totalmente o corpo, dando-lhe um aspecto de um ser de outro mundo, se é que já não vivesse nele...

Ah! mas verdadeiramente nunca me importei com a figura do Coronel Jeremias. Jamais me dirigiu palavras nas raras, raríssimas vezes em que entrei naquela sala de estar com minha mãe. Meu maior desejo era mesmo chegar perto do bodoque, daquela arma mortal contra os pobres urubus. Quem ousaria? Segurava-o junto de sua bengala e cochilava, navegando pra lá e pra cá em ondas imaginárias na cadeira de balanço...

Diziam que mudou de alvo, de sapos para urubus porque aqueles já estavam rareando por aquelas bandas, ali mesmo próximo do Casarão, na então denominada Rua do Sapo. Então era isso... Era em sua homenagem que a meninada usava a expressão: “Vá caçar sapo com bodoque...”. significando o mesmo que não me amole...
Ah! Coronel Jeremias... Então o senhor, heim?...

Que dor eu sentia no coração... no peito... na alma... Não saberia descrever com exatidão meus sentimentos, mas me lembro de cenas em que fechava os olhos, apertando-os bem apertadinhos para não ver pelo olhar de minhas recordações os pobres bichos pretos, caindo um após outro de cima dos telhados...
Meu pai e suas pesadas botas pisando o frágil assoalho de madeira de minha casa faziam também desmoronar meus castelos de cartas de baralhos demoradamente empilhadas sobre a mesa da sala de jantar... Eu-menina e os frágeis urubus estávamos tão próximos...

Bem, as mãos de Dona Nhazinha já foram lisas e finas em algum tempo esquecido. Tornaram-se nodosas nas juntas dos dedos que nem dava para acreditar que já haviam dedilhado e dominado com maestria as teclas do velho e encardido piano da sala de estudos...

Franzina, miúda, cabelos brancos e rareando, vestia-se com roupas sóbrias, de cores mornas ou já quase mortas. Acredito que jamais expusera seu corpo à luz do sol, o que acentuava à sua pele a cor branca da palidez excessiva. Intocada como ela.. Arrastava mansamente ao andar, as sapatilhas de pano, como a pedir desculpas às largas tábuas do assoalho do Casarão. Ah! Sempre precedida pelo inconfundível odor da velhice, numa alquimia perfeita de misturas: a casa, os móveis, quinquilharias e lembranças!!!

Assim era ela, a minha professora de piano.

Religiosamente, na hora marcada dona Nhazinha chegava à sala de estudos para tomar minhas lições. Que lições? Como tocar algo, mesmo inventado na hora para enganar seus ouvidos já quase aposentados se nem mesmo eu copiara aquela infinidade de bolinhas, pauzinhos e um sem número de sinais incompreensíveis?
Sua chegada era sempre anunciada pelo vai-e-vem de uma porta envidraçada, daqueles vidros foscos com delicados detalhes de ramos de flores: nhééécc... nhéeecc... nhécc... nhéc.

Pronto. Encontrava-me mais uma vez sentada na banqueta de madeira em frente ao piano. Ora ficava alta demais, ora baixa demais. Girava para a direita, girava para a esquerda, punha pra frente, pra trás até que os pés alcançassem os pedais e os braços ficassem esticados... A banqueta era por demais interessante... Muito mais do que levantar a pesada tampa e libertar aqueles teclados que, sabia, rejeitavam toda a possibilidade de serem tocados por mim. Acariciados é que nunca foram.

E mais... O cenário onde me encontrava era terrivelmente atraente, mágico mesmo: objetos indecifráveis como bibelôs de biscuits representando figurinhas de camponeses, tocadores de flautas ou cantores... caixinhas fechadas, balangandãs de cristal pendurados no teto, enfeites dos lustres cujas lâmpadas se apagaram há muito... . E mais, as bailarinas das caixas de música, rodopiando sobre um assento de cetim, equilibrando-se nas pontas dos pés.
E quanto mais eu girasse o corpo e a cabeça mais descobria novas figuras... Tão pequeninas... tão frágeis... tão perfeitas, caladas e sufocadas pelo pó de anos e anos sem limpeza, sem quaisquer toques.
Repousavam com ares de resignação sobre uma grande mesa central e aparadores que se sustentavam nas paredes...

Percorrendo cada espaço da sala, eu me detinha naquele imenso relógio carrilhão, que diziam, quanto maior, mais posse tinha a família proprietária. Por isso é que ele quase tocava o teto de madeira. Perdia-me em seu mostrador, um emaranhado de risquinhos em pé e cruzados. Dizia minha mãe que marcava horas em algarismos romanos. Às vezes me perguntava se marcava mesmo as horas ou ficava atrapalhado com a imensidão de riscos virados pra lá e pra cá.

Ah! como sorrateiramente queria entrar na magia daquele mundo, atraente e indecifrável. E qual um bibelô eu me colocava em frente ao piano estática, imóvel para que mansamente pudesse percorrer o Casarão, mesmo que fosse preciso me tranfomar num daqueles enigmáticos enfeites.
Detinha-me por longo em frente ao Coronel Jeremias, que cochilando sequer percebia minha presença. Que maravilha tocar levemente sua velha barba embranquecida e certificar-me de que não eram feitas de algodão doce... Ou ainda, tirar-lhe o bodoque das mãos e dedilhar suas cordas, ainda que sem as bolotas de barro... O Casarão? Definitivamente não me interessava... E por quanto tempo ali permanecia não sei dizer. Flutuava.

O toque suave de mãos idosas em minhas mãos ou a ponta de uma pequena vareta como estivesse a perfurá-la, devolviam-me à aula de piano. Voltava para a vida, respirava ainda com dificuldade e readquiria meus movimentos. Os bonequinhos de biscuit permaneciam imóveis. Éramos solidários em nossos mundos.

“Olhe para o relógio, menina-criança, torce os pezinhos dentro do sapato de verniz, porque está fazendo algo que não gosta e não quer. Erra devagarzinho, em silêncio, para dona Nhazinha não acorda novamente de seu cochilo, para que a melodia que finge ouvir embale seu sono e para que os fantasmas voltem para seu convívio um a um... Deixe-a adormecer e quando sair da sala abra a porta devagarzinho para que seu “nhééééccc" não denuncie sua despedida do Casarão dos mortos-vivos”.

É... Despedidas precisam ser sempre imperceptíveis. Silenciosas... Solitárias.

colagem: cidinha souza pinto

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