quarta-feira, 31 de março de 2010

TIA LANDA E O GATO MICHIM

Esta foto é do meu gato Frederick Adams
Semelhança com Michim, só na cor .



Michim era lindo, pelo menos no meu conceito de menina. Inteirinho branco. Tinha pelos longos, mas não tão longos como aqueles chamados de raça que precisam ser penteados e escovados com frequência. Era, como eu diria, assim como um carpete, pelagem farta e fofa.
O que se esperava de um gato como esse? Que vivesse enroscado nas pernas de cada criança, de cada adulto, que miasse mansinho e vivesse encarrapitado no colo das visitas. E mais, que desse aquelas tão conhecidas voltas e mais voltas em seu próprio corpo até encontrar o lugar mais aconchegante e apropriado para se deitar..
Bem, Michim não era nada disso. Dengoso, era sim, mas sabia muito bem ser rabugento e mal humorado. Só vendo para crer.
Minhas primas Rosa e Regina, filhas de minha tia Landa julgavam-se donas do gato. Pura ilusão. Michim pertencia mesmo era à minha tia. Bem, pertencer não é um termo apropriado. Gatos não pertencem a ninguém, é o que dizem. A bem da verdade, Tia Landa era propriedade do gato. Ele a escolheu e à velha casa da General Osório para viverem um grande caso de amor.
Contava-me e para minhas primas, que ele chegou a sua casa de maneira muito estranha. Mágica, como as estórias que adorávamos ouvir. Foi trazido pela “cegonha dos gatos”, que o deixou no forro de madeira da sala de jantar, bem escondido, bem aconchegado.
E não é que Tia Landa queria mesmo um terceiro filho? Mas um gato? Assim foi e assim ele foi recebido: um bebê-gato.
Bem, acreditando ou não lá estava Michim, recém despencado sobre o sofá da sala. E mais, sobre o colo de Tia Landa. Teria enfim mãe e duas irmãzinhas... Conhecidas.
Não só. Tia Landa tinha um marido, o Tio Tonhão que era seleiro. Trabalhava confeccionando arreios enfeitados para cavalos e forrava sofás. Mas o melhor mesmo é que criava pas-sa-ri-nhos... E de raça, daqueles amarelos como ouro ou cor de laranja como um por de sol... Pareciam encantados, feitos por alguma fada. De tão pequeninos, poderiam caber inteiros em sua boca. E sem muito esforço. E como cantavam... Tio Tonhão assobiava e eles respondiam...
“Todos eles para mim. Que presentes maravilhosos”, pensava.
“É... acho que estava sendo esperado, mesmo...”

Fechava os olhinhos e sonhava com carne tenra, penas coloridas e depois... a saciedade!!! Adormecia encarrapitado na almofada do velho sofá da sala de jantar.
Michim era um gato viajado. Passava as férias escolares de inverno e de verão no sítio de meu pai.
Não tínhamos carro e o modo de transporte eram duas carroças puxadas por cavalos. Iam entulhadas para o longo período de três meses na roça. Michim juntava-se aos utensílios e assim seguíamos viagem em fila indiana. Confundia-se com as malas, trouxas, gaiolas de passarinhos, mantimentos, além do papagaio. Conviviam pacificamente com os solavancos e as tralhas, sob o olhar vigilante de Tia Landa.
A viagem era longa, em minha percepção infantil de medir tempo e distância. A estrada percorrida era de terra batida, com longos trechos arenosos e imensas crateras cavadas nos barrancos provocadas pela erosão. Os cavalos caminhavam a passos lentos. De quando em quando algumas paradas para que recolhêssemos alguns pertences despencados das carroças.
Uma paradinha aqui, outra acolá ao longo do percurso para acenos, cumprimentos e um “dedinho de prosa” com todos os lavradores que moravam em terras vizinhas.
Nesses momentos, Michim esticava seu corpo, olhava ao redor como a reconhecer o terreno e se preparava para saltar. Era imediatamente agarrado no ar pelas mãos atentas de tia Landa.
Quantas e quantas vezes olhei para trás e vi Michim equilibrando-se naquela montanha de quinquilharias como se pertencessem a vendedores ambulantes. Não perdia a pose de gato arrogante. Era ver para crer.
Hummm... Esse ar de arrogância também fez dele um gato que rejeitava qualquer contato, um afago ou carinho que não os que Tia Landa lhe dava.
Essa era a vida do gato Michim. Caseiro, Certamente dava suas escapdelas pelos muros das casas vizinhas, mas nada que fizesse tia Landa sentir sua falta por muito temo.
Ao alvorecer de cada dia, Tia Landa já o encontrava dormindo em sua velha almofada, no canto do sofá da sala.
Depois, era só esperar pelo odor do primeiro café do dia... E pelo seu pires de leite. Delícia dos deuses dos gatos...
Saciado, invariavelmente se deitava na soleira da porta da cozinha. Preguiçosamente escolhia uma réstia de sol para tomar seu banho matinal e cochilar... Vida de gato, mesmo...
Os dias foram passando, passando e tão rapidamente que nossa infância escapou de nossas vistas. Tenho certeza que acontecera o mesmo com o gato Michim.
Cada vez que pergunto para minhas primas como fora sua velhice, afirmam não se lembrar ou espere aí... Sim.
Tornou-se um charmoso gato velho e rabugento, mas com os mesmo hábitos de chamar tia Landa de manhãzinha para receber o pires de leite, enroscar-se em seus pés e reclamar do ronco de tio Tonhão. Esperava pelo mais belo passarinho que nunca lhe caiu nas garras.
Um dia que não ficou marcado no calandário, não foi encarapitar-se nos pés de tia Landa, o leite morno do pires ficou frio e a réstia de sol mudara de lugar esperando que ficou por seu companheiro. A almofada mais velha e surrada do sofá da sala estava vazia.
Gato Michim criara asas e voltara para o forro da casa, lá mesmo de onde viera. Transformara-se num imponente e ranzinza Gato Branco Encantado.

“Mamãe, mamãe, venha ver. Tem um gatinho novinho, novinho dormindo na almofada velha onde dormia o Gato Michim... E o gatinho é branco e peludo como ele, mamãe... Posso pegá-lo?”
Rosa e Regina, minhas primas bem que tentaram uma aproximação, mas...

Tia Landa aproximou-se. Tocou levemente seu pelo macio. Olharam-se demoradamente nos olhos. Dispensaram as apresentações. Foi só continuar viver a vida...

As crianças... Ah! Éramos apenas crianças...

Conto publicado na Revista “O Pulo do Gato” n.04
Edit. TopCo. Campinas






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