domingo, 11 de abril de 2010

ANJOS DA GUARDA

colagem e montagem Cidinha Souza Pinto

Nunca vi pessoalmente anjos, um único que fosse. Quero dizer, anjos assim como dizem, seres etéreos, celestiais, puros em espírito e que vivem permanentemente em estado de graça. E mais, fazendo do céu sua moradia. Inegavelmente, com cabelos encaracolados e grandes asas que soltam pequenos fiapos a se perderem no espaço.
Não indago sobre suas origens e nem me importa conhecer os contornos de seus rostos, corpos ou idades. Seria humanizá-los em demasia. Basta-me que sejam anjos.
No entanto tenho me perguntado com certa freqüência por que acredito em suas existências. Talvez nem espere por respostas para que as delícias dos vôos imaginários pela fantasia não me abandonem.

Disseram-me em tempos de menina sonhadora que com certa frequência descem à terra para uma visita de cordialidade a seus protegidos. Também atendem chamados de urgência.
Mas...se falham em sua pontualidade, causam danos irreversíveis por aqui. De nada adiantam suas explicações angelicais. A compreensão da linguagem celestial é privilégio de poucos.
Resta-lhes percorrer o caminho de volta, invariavelmente acompanhados e sob intenso queixume de seus protegidos. Os sons de choros abafados, o forte ardor de velas e flores amanhecidas vão se perdendo na distância.

Pensando nessa terrível possibilidade de deixar precocemente a terra que habito e onde usufruo de alguns prazeres mundanos, tenho tido o cuidado de chamá-los com certa antecedência para socorrer-me em situações de apuro.

Pedidos e evocações aos seres celestiais fazem parte de minhas orações noturnas. Não só. Freqüentemente eu os chamo em voz alta, assim mesmo no coletivo, no plural que é para me assegurar de que não serei esquecida: Santos Anjos do Senhor... Natanael, Miguel, Rafael, Abimael, Ariel e tantos outros “el” que descem em bandos aqui em casa.

Não há reclamações a fazer. Tenho sido atendida até porque uma das características angelicais é a liberalidade. Ou até por uma questão de justiça: sou caridosa, faço o bem, protejo os desprotegidos, tenho a palavra certa na hora certa, quando não me atrapalho nas datas e horários. Escolhi por profissão trabalhar para os pobres e os miseráveis, despossuídos de bens materiais.

Conto portanto com a compreensão de meus anjos invisíveis. Que me perdoem cobrar-lhes essa reciprocidade, mas pleiteio proteção em troca de meus relevantes serviços prestados aos desvalidos.

Anjos... quantas histórias me foram contadas por minha mãe... Verídicas ou quem sabe mesmo criadas na hora para fazer a criança adormecer e ter bons sonhos... Tenho a impressão de que se inspirava nas pequenas estampas semelhantes aos santinhos e devotos. Algumas até já envelhecidas, amassadas nas pontas de tão tocadas e folheadas.

Carregara consigo durante anos e anos cuidadosamente arranjadas numa caixa de sabonetes. Ao abri-la sentia como se a perenidade do perfume divino invadisse minha alma infantil. Não era fragrância de ser percebida com o olfato. Aspirava sim, o aroma da imaterialidade, do sobrenatural.

Dizia-me ela um sem número de vezes que os chamou à terra e até com certa urgência, para que nos acompanhassem: ela em sua parição e a mim, em minha nascença, em meu primeiro acordar no mundo. Não me revelou seus nomes, o que também acho desnecessário. Anjos são réplicas um dos outros e por semelhança, com nomes idênticos. Mas aqui comigo imagino ter sido Miguel, nome de meu querido e saudoso tio Miguel Ângelo.

Acredito sim, que minha mãe tenha convocado anjos parteiros, com experiência comprovada em seus currículos para que eu não fizesse companhia aos meus dois irmãozinhos desnascidos.

A maneira como empreenderam essa longa viagem do céu à terra, não sei. Prefiro a versão fantástica de que fui trazida por um deles, oculta e abrigada em suas asas.
Aprendi desde então voar com o vento, minha primeira experiência libertária. Planamos calma e pacientemente sobre montanhas, rios e cachoeiras. Sobrevoamos imensas planícies até que foi completado o tempo da parição de minha mãe..

Aí sim, magicamente ao abrir meus olhos, revelando-me para a vida, deparei-me com a figura inesquecível de um anjo feito criatura. Seu rosto tinha traçados suaves e delicados. Seu sorriso mostrou-me naquele momento a dimensão palpável da vida.
Seus olhos azuis, espelhavam o céu dos dias ensolarados. Os cabelos, castanhados e as mãos... Ah! a suavidade do primeiro toque... Sensações indescritíveis para uma criança em seu nascedouro.
A voz me pareceu conhecida, embora não soubesse ser humana ou divina. Era feita de suavidade e ternura, especialmente concebida para cantar cantigas de acalentar criança.

Quando me trouxe para junto de seu peito, tornamos únicas nossas respirações e mesclamos nossas vidas ainda que por instantes. Vivenciamos a existência humana em sua transcendência. Inexplicável essa significância de criador e criatura.

Experimentei diante dela, minha mãe a sensação plena, única e indivisível da proteção e do aconchego. Anjos verdadeiramente existiam.

Acompanhou meus passos de menina e adolescente. Segurou minhas mãos. Caminhou comigo como caminheiro em solos desconhecidos. Brincou brincadeiras de faz de conta para mostrar-me a vida em seu caráter multifacetado.

Em gesto singelo de despedida e no olhar inacabado do adeus, soltou-me de seus braços. Apontou-me os caminhos da juventude, ainda que os soubesse incertos. Em curta gestação, preparara-me para a vida.

Sua estrada já era a da volta. Para sua caminhada escolhera a companhia de seus anjos prediletos. Já não precisava contar os dias para viver. Envelhecera em seu corpo físico. Encontrara face a face a transcendência da dimensão humana.
É indiscutível que tenha se transformado em arcanjo e quem sabe, sido chamada a conhecer a seleta morada dos santos.

Nesse passeio pela vida, na insólita e solitária visita à infância tenho andado à procura de meus anjos.

Quando criança nunca me vesti como eles se vestem para caminhar pelas ruas da cidade à frente de intermináveis procissões. Homenagem aos santos. Aquelas asas cheias de penas brancas presas às costas, os vestidos longos de cetim a se arrastarem pelo chão e a coroinha de flores brancas presa à cabeça sempre me deram a sensação de morte antecipada.

“Anjinho”, diziam, são aquelas crianças que ganham precocemente o reino dos céus. Não, definitivamente, não queria fazer companhia a esses seres singelos, com carinhas arredondadas e bochechas rosadas por falta de sol. E mais, cabelos encaracolados eram difíceis de pentear.


Ah... mas tem um tal de anjo... Tão logo deixou-me no colo de minha mãe, postou-se na cabeceira de meu berço. Enfiou-se nem sei como numa moldura de marfim e deixou-se ficar imobilizado num pequeno círculo de bronze, assinalando assim sua vida eterna.
Mesmo imobilizado num pequeno espaço, seria irrestritamente o meu protetor. As camas foram sendo trocadas. Meu corpo crescia, eu me espichava no comprimento, mas meu anjo permanecia imóvel, guardião, impassivel diante de tantas mudanças. Cumpria à risca seu papel de guardador.

Tempos que passam. Vida que voa qual asas de anjos transpondo os limites da compreensão humana. Em meu coração abriguei afetos. E desafetos também, espremendo-se para encontrarem seus lugares em algum compartimento.
Mamãe se foi acompanhada por algum anjo musculoso, forte, porque era bem pesada.

Estou aqui olhando para esse céu azul entre montanhas. Voam pássaros com penas coloridas em grande algazarra. Anjos da modernidade escolhem novos adornos, novas roupagens.

Em meu coração e nesse infinito da vida, sempre, mas sempre mesmo eles terão seus lugares demarcados e privilegiados: esses maravilhosos e visíveis, os meus queridíssimos anjos da guarda.

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