terça-feira, 27 de abril de 2010

AS DELICIOSAS RECEITAS DE MINHA MÃE


AS DELICIOSAS RECEITAS DE MINHA MÃE

Mamãe não foi cozinheira de excelência. Cozinhava o trivial quando podia. Era professora primária. Lecionou em Escola Rural da Estação de São Bento, a uns 40 minutos de trem Maria Fumaça, de Pirassununga.
Entre sair de casa e voltar, já se ia o dia embora. E mais. Preparar aula do dia seguinte e claro, ficar comigo. Ensinar-me ler e escrever, contar histórias, ouvir novela pela Radio Nacional e esperar pelo meu pai. Cansado da lida com bois e vacas, do plantio de arroz, milho, feijão, etc ,etc para nosso sustento.
Como ainda ter vontade e tempo de ir para a cozinha. Em fogão de rabo, o fogão à lenha, só pra recordar.
Viveram conosco pessoas que a ajudavam: na roupa passada e lavada, nos serviços de casa, em levar-me à casa de vovó Dolores. Moravam em casa: a Josefina, depois a Rute, e, seguida a Aparecida... E a Lúcia? Por onde andam vocês, heim?

Ah... mas os doces... Esses não escapavam. Os pãezinhos, bolachinhas. E os bolos, então... Pra que comida?
Tinha algumas convicções. Entendia que essas guloseimas que enfeitavam minha vontade não eram alimentos. Eram só delícias.

O troca-troca de receitas, o experimenta daqui e dali, os pratinhos cobertos com guardanapos de saco, meticulosamente bordados à mão, subiam e desciam as ruas da vizinhança, a José Bonifácio.
Não havia colesterol, nem diabetes, nem regime e muito menos as doenças da modernidade que fizessem frente aos doces. Guardados em latas para a hora do lanche da tarde, para depois do jantar e para a hora da novela ouvida em silêncio absoluto pela Rádio Nacional. Só o delicioso som de latas se abrindo, do roc roc mastigando aquelas maravilhas, confundiam-se com os sons do ambiente.

Mamãe, ao experimentar as receitas, colocava um código, segundo seu critério: boa, deliciosa e muito boa. Se não houvesse nada escrito... Bem. Não havia gostado ou experimentado.

Ao transcrevê-las mantive a originalidade: os conceitos, os ingredientes por vezes inusitados: punhadinho, pouquinho, banha vegetal e por aí vai.
Essas receitas são datadas de 1948 até início de 1960. Há algumas colagens, subtraídas da Folhinha do Sagrado Coração, da Editora Vozes e também de Maria Alice Prestes, publicadas em jornal, sem referência. Apenas o recorte. Uma pena. Não as transcrevi. Valeu o meu critério do "boca a boca".

Invadi os cadernos de minha mãe. Um passeio pela sua particular gatronomia. Escritos com uma caligrafia bonita demais. De professora. Caprichosa demais. Os odores e sabores voltaram para mim com sua presença.

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