sexta-feira, 9 de abril de 2010

AS JÓIAS DE VOVÓ REGINA


Vovó Regina foi apartada da vida. Saiu em profunda solidão pela porta da frente do casarão.
Havia
poucos
acompanhantes,
tal a pressa com que foi levada. Sem despedidas e sem tempo para choro. Sem tempo pra viver. Deixou no desamparo do afeto um marido italiano e duas filhas pequenas, em tamanho e em idade.
Não os conheci, meus avós. Nos relatos de minha mãe, a criança mais velha e tão cedo envelhecida, mostrou-me o significado de vivenciar dolorosamente a tragédia e a orfandade. Compreendi o significado da vida olhada pelo avesso.

Viveriam por toda vida, os que ficaram, com o sentimento da ausência, da separação, do incrível significado do para sempre e da saudade lhes fazendo companhia. Transformaram-se em lembranças. Essas quase apagadas, cederam lugar ao imaginário.
Vovô Fusca foi mansamente construindo e reconstruindo a seu modo, nova história para as meninas órfãs de mãe.
A verdade sobre a vida e morte de vovó Regina tornara-se virtual, quase uma lenda. Assim continuou sendo contada. Tiveram nova mãe no cotidiano de suas vidas. Sobreviveram, esta foi a realidade.
Também conseguiram sobreviver, as poucas jóias de vovó Regina. Enfeites, relíquias, quem sabe.
Mamãe e eu, em cada visita que a elas fazíamos, a chamávamos de jóias.
Cada uma das órfãs se apegou àqueles objetos fundidos em ouro, em rubi e pérola como fossem parte viva da mãe que havia partido.

À minha mãe coube um brinco e um broche. À minha tia Landa um bracelete e o outro brinco. Os elos continuaram rompidos. As jóias divididas. A história partida, fragmentada, apenas recontada como nos contos de fadas.
As jóias de vovó Regina, intactas, intocadas, ficaram guardadas por longos e longos anos. Divididas, porém.

Vovó Regina, minha mãe e tia Landa visitavam-me em sonhos. Frequentemente. Chegavam mansas da mesma maneira como partiram. Pediram-me apenas que os elos fossem reconstruídos, que o círculo fosse fechado. As jóias precisavam ser reunidas, emparelhadas.
Refizemos finalmente a unidade. Num casamento que prometia ser eterno, como eternas são as promessas. Nessa cerimônia, a troca foi feita.

“A visão da cena era etérea, envolta em brumas. Imperceptível em seus contornos. Somente alguns de nós ali presentes, puderam partilhar aquele momento.

Giuseppe e Maria Regina reencontraram-se num imenso salão de baile. Festejavam um casamento. O tempo... as roupas... as pessoas... as músicas... Tudo fora de época... de lugar... O que faziam então ali, a rodopiar?
Dançaram como há muito não o faziam. Ah! Como estavam leves... Puro encantamento.

A bisneta, em seu vestido branco, exibia a exuberância de sua juventude.
Ah! Mas algo inquietante perturbou aquelas poucas pessoas em meio a tantos convidados. Bastava um olhar para aquelas duas mulheres vestidas de branco, noivas do passado e do presente. Separadas naquele momento por um século de vida.

Usavam jóias centenárias: brincos, broche e bracelete com pedras de rubi e pérolas. Estranhamente idênticos...

Sem olhares. Sem comentários. Aquelas pessoas já conheciam a história...


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