terça-feira, 6 de abril de 2010

AS VELHAS CASAS ONDE MOREI


Não... não se pode reduzir a mero relato este momento em que revisito as velhas casas onde morei com meu pai e minha mãe.
Conheci em criança, sem saber verdadeiramente os significados, as emoções que carregam consigo as tragédias e comédias.
Desde criança tive a convicção de que jamais moraríamos em casa de nossa propriedade.
Se moradia tivesse o significado de segurança, como cresci aprendendo e ouvi tapando os ouvidos, então vivi na corda bamba, no arame fino e mal esticado de um trapézio e mais, sem rede de proteção para as previsíveis quedas.
O legado material foi se transformando pouco a pouco em ilusões que se esfumaçaram como o tempo. Este passara velozmente pelas nossas vidas. As promessas ingênuas e não cumpridas de meu pai preencheram nossos dia-a-dia, meus e de minha mãe. Promessas alimentam fantasias. Não custam caro.
Então, por conta e risco, e concluo que com mais risco, moramos somente em casas alugadas. Ponto. Esta foi a verdade absoluta. Irreversível. Irrefutável. Sem ilusões, lamentos, escapatórias ou coisa que o valha.

Para meu pai, boiadeiro errante bastava um teto qualquer nas paradas e se houvesse um pelego para encostar a cabeça, um poncho para lhe cobrir o corpo e protegê-lo do vento, frio ou chuva, juntava folhas pelo chão e se recostava. Era sua cama. Perfeita para o sono que não tardava. Naquele pedaço de terra a ela se misturava e se recompunha do cansaço da lida. Na volta para casa, em qualquer quatro paredes erguidas sabe-se lá como, sentia-se num palacete. Usufruía o pequeno conforto material ainda que por poucos dias. Alimentava-se de nosso afeto, meu e de minha mãe.

Ah! Mas era exigente com as moradias, sim. Casas poderiam ser velhas, remendadas e alugadas, mas deveriam ter um quintal. Não um quintalzinho desses de se medir com a mão esticada, mas um quintal onde pudesse improvisar uma cocheira para os cavalos, guardar carroça e charrete, nossos meios de locomoção. E mais, uma horta... para mamãe cuidar.
Ah! não se esquecendo dos cachorros e ainda um lembrete: esterco de animal não poderia ser desperdiçado. Deveria ser amontoado diariamente até o estado final de curtição... E tome cheiro de estrume aqui e ali, mijo de cavalos e éguas aos borbotões. E cachorros fedidos, cansados e suados.
Eram únicos e cúmplices. Completavam-se. E se entendiam.

A conformidade devagarzinho se instalava em mim. Como lhe pedir tamanho sacrifício de ser homem provedor se o dinheiro que reunia em cada mês vindo da lida com a terra, com bois e vacas mal dava para caber numa única mão? E de minha mãe, professora de escola rural, que economizasse uns centavos? .

Dia 12 de dezembro do ano de 1950. Um dia muito especial para mim, o da Primeira Comunhão. Domingo de Missa Solene. Depois, a volta para casa com alguns amigos de infância e parentes, convidados para o bolo e chocolate quente como mandava a tradição. Todos em torno da mesa da sala.Olhos maiores que a barriga aguardando com ansiedade o fim da contagem para uma brevíssima oração: um... dois... e...

Então... Não é assim que começam as estórias? Um estrondo ensurdecedor naquela sala se misturou às vozes aflitas. Poeira encobrindo os bolos, o chocolate e meu vestido branco. Branquinho. De renda branca feito por D. Lila. Não acreditei no que vi e ouvi. Fiz todas as lições e estudei como mandava os ensinamentos do padre Cruz e de dona Chiquita Boller, a professora de Catecismo. Não poderia ser um castigo dos céus... Não para uma menina vestida de anjo e com seus pequenos convidados devotos.
Corre-pra-cá... corre-pra-lá... Corre pra rua. Meu pai, como se tivesse emergido dos escombros anunciou com a tranqüilidade de quem se via num estouro de boiada:

Não foi nada, não. A filha da puta da parede do banheiro caiu...”.

Caiu? Tombou? Espatifou-se toda?
Não... Sustentou-se em parte pelas amarras de varetas com barro e pela parede da frente, divisa com meu quarto. Meu quarto? Quem entraria lá se havia em suas paredes imensas rachaduras? Cairia também como um jogo de cartas ou de dominó daqueles que eu gostava tanto de jogar?

A filha da puta da parede era de pau a pique...”, concluiu meu pai em seu diagnóstico de um grande conhecedor do assunto.

Para ele a vida resumia-se à sua própria realidade, vista pelo avesso. Muito simples. A parede caiu porque era filha da puta. Só.
Estava apenas inclinada, mas ainda havia espaço para entrarmos - abaixadas, entenda-se - no banheiro. E de modo inusitado, por um túnel. Nada estava perdido, do seu ponto de vista.

“Parede de pau a pique é forte. Não vai cair mais do que isso”.

Inconformadas: eu e minha mãe. Incrédulos: todos os que presenciaram a cena. Os vestidos brancos das meninas, os terninhos engomados dos meninos e eu menina-noivinha de Jesus Cristo ainda em lua de mel, reiniciávamos a corrida sem saber para onde ir.

Pois é... À revelia da lei da física usamos aquele cômodo por muitos e muitos dias. A vergonha e o temor repentinamente se instalaram em mim, emergiram dos escombros. Compreendi o significado da curiosidade, da bisbilhotagem, da compaixão, do disse-que-disse e do meu constrangimento. Minha casa virou um inusitado lugar de visitação. Afinal quem não gostaria de ter um túnel, uma entrada secreta em sua moradia?

É... mas não parou por aí. A parede foi consertada. Remendada. Uma só, a que caiu. Mudei-me de quarto. Troquei de lugar com as trincas por algum tempo até mudarmos de casa. Levamos algumas delas conosco.

Sim... trincas em uma das paredes do quarto de meus pais. Minha mãe alertou. Ah... mas havia os bois e vacas “estacionados” no pasto. Não podiam esperar pelo dia seguinte. As longas jornadas começariam logo ali naquelas pastagens. Não haveria espera.
Não esperaram mesmo. Nem o gado para seguir viagem e nem o tempo que ficaríamos sem meu pai.

Era uma tarde qualquer. Eu fazia lição de casa e minha mãe preparava as aulas da semana. Um estrondo. A casa tremeu. Senti que um terremoto se aproximava e já estava bem próximo da rua, ali mesmo. Não... estava em minha casa... Sim... Não... Sobre nós!!!
A parede rachada tombou. Parte dela foi para a rua. Parte para o corredor, local de passagem dos cavalos, charrete, carroça e tudo o que coubesse no quintal.
Tive a inusitada sensação de que o quarto de meus pais estava integrado ao espaço público, na rua José Bonifácio e não sabíamos. Sentia-me desnudada, misturando-me aos que se aglomeravam para ver uma cena de surrealidade.
Meu pai não conseguiu entrar. Com ele, ficaram na rua os cavalos, cachorros e sua carroça. Entrou somente sua teimosia. Em dose exagerada.
Olhou, olhou e olhou. Tirou lentamente o chapéu de abas largas da cabeça. Coçou o queixo e lá da rua concluiu, usando de sua lógica plena de verdades-verdadeiras, únicas e atreladas em si mesmas, sem folga no nó:

“É... Não dá pra usar mais esse quarto. Vamos mudar os móveis para o outro quarto.”.

Mais uma vez a vergonha e o temor me fizeram companhia. Recordei-me de meu aprendizado sobre a significação da curiosidade, da bisbilhotagem, da compaixão, do disse-me-disse. Minha casa virou mais uma vez um inusitado lugar de visitação. Afinal quem já vira um quarto no meio da rua?

Assim, história vai, história vem e meu pai nos presenteando com a vida contada pelo avesso. Mais mudanças, percorrendo ruas e ruas, acomodando-nos em cada casa que ainda tivesse alguma condição de ser habitada. Por pessoas, porque, animais...
Levávamos em carroças o que nelas cabiam e em velhos caminhões arranjados a ultima hora o que os cavalos não podiam carregar.
Para cada situação ele tinha uma solução:
“Se há goteiras na casa, não é preciso trocar as telhas. Coloque bacia bem grande em baixo e panos em volta pra não respingar”.
“Se o assoalho da sala de visitas está com cupim, ameaçando ruir, fazendo o piso quase tocar o porão, mude os móveis de lugar e mude o lugar de receber visitas. Feche a porta”.
“Se o batente das portas da sala e do corredor deixam mais estreitos os espaços dificultando a entrada dos móveis, arranque-os e não os recoloque mais”.
“Se a fechadura da porta da cozinha quebrou, coloque trava de madeira com dois suportes que dá no mesmo”.
“Se a madeira do forro tem cupim e o pó cai sobre a cabeça, use boina ou chapéu pra protegê-la”.

Se... se... Quantos foram eu não sei. Perdemos as contas, eu e minha mãe. Meu pai continuou contando até onde sabia. Deve ter voltado ao começo um tanto de vezes.
Foi contando os "se" até que um dia percebeu um longo caminho à sua frente. Não havia bois ou vacas. Apenas imensas pastagens. Para seguir por essa estrada, à sua maneira de boiadeiro deve ter pego carona em alguma velha carroça. Puxada por uns burros velhos, como não poderia deixar de ser.
Não se importou se houve demora em sua chegada. Burro velho não corre, mas atinge seu destino, seu ponto de chegada. Encontraram-se ele e minha mãe, sem demora.

De onde estou não posso vê-los, mas senti-los. Renovo a cada momento minha esperança e meu desejo de que em meio às nuvens, no infinito azul do céu existam casas, muitas casas e que suas paredes sejam resistentes, que não precisem de reformas urgentes, que não haja cupins nas madeiras do forro, que as portas tenham fechaduras. E mais, muito mais: que possam ser compradas. Com dinheiro vivo e à vista. E com escritura passada em cartório. Quaisquer dúvidas estou pronta para daqui da terra chamar São Pedro e seus auxiliares e lhes contar minha história sobre as velhas casas onde morei!!! O Santo que se cuide...

ilustração: colagem sobre papel de Cidinha Souza Pinto



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