segunda-feira, 5 de abril de 2010

CARTAS DE UM GAÚCHO


O luto pela perda de sua jovem mulher durara apenas três meses. Meu avô materno, o italiano Giuseppe Maria Fusca não perdera seu tempo em namoricos em salas de visita ou em escolhas de nomes com sobrenomes. Buscava sim uma nova mulher. Para si e para criar suas duas filhas, ainda crianças. Urgia voltar ao trabalho, às comilanças e aos bons vinhos com seus amigos patrícios.
Encontrou na adolescência de Dolores, moradora na Rua da Estação, a pessoa procurada. Sem encontros, encantos, sem conversas ou vestido de noiva, aceitara o casamento e a primeira maternidade de duas crianças sem parição. Não se negara experimentar o desconhecido.
Mulher e madrasta confundiam-se em sua pessoa. Bebiam na mesma fonte, espelhavam-se e se misturavam.

Pulou etapas da vida como saltasse obstáculos, à semelhança de atletas em competição. Havia pressa, muita pressa em ser mulher. Não subiu ao pódio contudo e tampouco foi condecorada. Embalou sim, crianças recém nascidas ano a ano até perder-se em contas e em apressadas cantigas de ninar. Também chorou por seus desnascidos. Um choro só para dar-se ao tempo de novas esperas.
Aceitara a vida descolorida e desenfeitada que lhe fora oferecida. Acreditava em destino e cumpria à risca o seu, traçado com linhas retas, calcado, realçado e descombinado com seus sonhos de menina-mulher.

Essa história acompanhou minha vida, contada repetidas vezes por minha mãe. Não nos cansávamos, ela em seu relato e eu, em ouvi-la em sua recitação cadenciada. Revivíamos cada personagem em suas desditosas vidas, dela e de minha avó Dolores. Não raras vezes enveredava pelo seu começo ou então a iniciava pelo fim, sem se perder nos fios da meada. Acostumei-me a ouvi-la sem perguntas, sem interrompê-la com palavras, gestos ou mesmo um olhar.

Com a imaginação e fantasia de menina, temia que o passado sorrateiramente lhe fugisse das mãos e dela se desprendesse qual animal alado, roubando-lhe sua história. E mais, o medo sempre presente de que a dor que lhe acarinhara o corpo e as lembranças de criança-órfã viessem novamente lhe fazer companhia.
Serenamente nós nos aconchegávamos e nos aquietávamos em nossos silêncios. Recobrávamos nesses momentos a pluralidade de nossas vidas: ela, a mãe e eu, sua filha.

Dolores seguiu suas dores. Ofereceu-lhes o caminho, indicou-lhes a direção e caminharam juntas. Nesse inusitado encontro, entregou-se e rendeu-se a elas. Fundiram-se e se embaralharam: corpo e alma. Tornaram-se únicas.

Deixara para trás seus sonhos de mulher, abortando ilusões e devaneios. Distanciara-se de seu viver e se desjuvenescera. A desesperança foi sua grande aliada e sobreviveu vociferando contra os desmandos da vida, do mundo, das pessoas e de quantos mais estivessem à sua volta.
Apropriou-se da vida pelo avesso e fez desses sentimentos o sentenciar silencioso de seu desprazer. Constituíra finalmente seu domínio, seu chão, sua herdade. Apropriara-se de seu destino e com açoite nas mãos exerceu seu poder e autoridade, fazendo valer as próprias leis. Insubordinou-se, insurgiu-se contra os afetos, desnutrindo-se do amor.

Eis uma vez mais o relato de minha mãe, continuando sua história, seu enredo. Inequívoca em suas lembranças.
Com seu olhar pousado no infinito buscava juntar pequenos fragmentos do tempo passado e conferir formas a um rosto humano, envelhecido que fosse. Tateava cada palavra, perdendo-se em meio a frases e buscava em sua memória, algum traço, uma expressão que fosse para refazer contornos já desfeitos pelo tempo, mesmo que esse costurar do passado durasse efêmeros momentos..

Transcendia ao descrevê-lo. Sem identidade a princípio. Apenas como um homem. Não... “um moço”. Não foi preciso muito tempo para desvendá-lo a mim. Amorosamente e com a certeza de que seria perdoada por esse adultério de palavras e emoções, revelou-me seu nome. Monsueto. Sem outro nome, sem sobrenome. Não sabia ou o tempo a fez distanciar-se do desnecessário.

Caminhava pela sua figura, tateando-a com lembranças. Como se privada da visão, o reconstituísse através dos tempos. Alourado, muito alto na estatura e olhos que navegavam no azul, iguais aos seus. Espelhavam-se ao se olharem.

“Viajante”. “Era caixeiro viajante”, dizia-me ela. Vendia produtos para o comércio. Quem saberia dizer se eram alimentos, cereais, roupas ou maquinário? Não sabia. Apenas me dizia: “produtos, filha”.
Despia-se à sua maneira, de quaisquer adjetivos que o pudesse tornar-se mais apresentável aos meus olhos. Nem seria necessário, mas diante de tal desnecessidade, me calava.

Seus trajetos que iam de uma cidade a outra eram traçados com precisão, o mais curto e rápido que conseguisse e pudesse. Percorria as redondezas na Maria Fumaça. Seu sacolejar em infinitas repetições e os longos apitos ouvidos em cada partida davam-lhe a indiscutível certeza do retorno.
Voltava, sim, à sua moradia, ainda que provisória no Hotel Central. Ele e meu avô eram suas referências, seu porto seguro. Perdera-se há algum tempo de suas pessoas e de sua terra natal.

Esperava e era esperado. Nutriam-se, sem o saberem, ele e minha mãe, da saudade. Numa breve revelação, inesperadamente até, o pedido feito, o compromisso selado. Um anel de uma pedra qualquer sem mesmo nunca ter sido jóia. Bastava ser um aro, um elo para ter significância. Ele adornara seu dedo e ela o exibia para si, reluzente, enfeitiçado, promissor. Desenfeitava-o para o trabalho diário, submetida à vontade absoluta das dores de Dolores.

Aprendeu dobrar-se aos seus caprichos. Ajoelhou-se e limpou chãos de intermináveis extensões. Feriu-se no corpo e no espírito e desarmou-se. Por fim rendeu-se à sua tirania. Não transcendeu à existência humana. Escravizou-se no desamor da mãe-madrasta.

Desejava nos desejos de criança e depois no de menina adolescente, voltar à orfandade de mãe. A dor tão doída da saudade e do abandono voltaria fazer-lhe novamente companhia. Em lugar do leite materno, sorveria o fel da ausência, da separação.
Queria mais, até o limite de aconchegar-se e adormecer em seus braços, embaladas por suas cantigas desmusicadas. Melhor seria essa dor que os dias que vivera com Dolores.
Desejava dormir o sono dos eternos e que o dia seguinte não tivesse luz ou que o alvorecer para o primeiro canto do galo não lhe trouxesse o afago de pesadas mãos e voz de estridentes gritos a tirá-la da cama. Não, minha mãe não desejava o dia seguinte.

Não encontrou tempo para desejos inúteis. As futilidades de menina moça foram ficando para o depois. Jogou o jogo contínuo dos perdedores e oprimidos. Reaprendeu tristes cantigas de ninar para embalar seus pequenos irmãos nascidos de Dolores mãe, madrasta e parideira.
Esqueceu-se dos estudos e perdeu-se no curso do tempo, como fosse rio a correr em leito ressequido.
Compreendeu dessa maneira e sem esforço o significado da palavra destino. Não se ofereceu em sacrifício, contudo. Era a narradora de sua história. E com sabedoria catalogou na memória fatos, pessoas, dores e amores que preencheram suas dimensões de menina e mulher. Crescera para os encantos de seu mundo, dominando seus espaços e seu tempo. Foi sobrevivente. Teria para quem contar sua história, assim como todas as que começassem por... era uma vez...

E minha mãe me recontava às vezes em que esperou pelo entregador de cartas. Monsueto partira em busca da mãe doente. Essa foi sua verdade como a lhe garantir o tempo de dolorosa espera. O anel compromissado ficara em seu dedo. Desesperançado pela longa espera. Buscara refúgio no desalento.
As mensagens de Monsueto venceram a distância, talvez embaladas pelo vento sul. Pertenceram, contudo à minha avó Dolores e ao copeiro Evaristo, seu fiel servidor. Interceptadas, lidas, relidas e queimadas. As gargalhadas humanas conferiam um tom demoníaco ao ritual macabro de extermínio do amor. Faziam-no arder na fogueira de visíveis labaredas, chamuscando as palavras que significassem promessas de retorno. O fogaréu foi lentamente se transformando em braseiro incandescente até que se consumiu em cinzas..

O forte vento Minuano, já enfraquecido pelas viagens as espalhou pelo universo, de onde eu vejo e leio as cartas desendereçadas. Tornaram-se estrelas visíveis em céu noturno.
Desnomeadas e cadentes como o viajeiro Monsueto. Restara apenas um som em sua boca, pouco antes de fazer sua passagem. Seu nome balbuciado, incompreensível, velado como os mortos o merecem.

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