sábado, 10 de abril de 2010

CONTA BANCÁRIA













Essas notas são originais da coleção de meu pai, Orlando de Souza Pinto, o Orlando Boiadeiro.

Meu pai viveu toda sua vida, acredito eu, de seu nascimento, até seus últimos dias, de modo primitivo. Manteve intocados os laços de boiadeiro. Rejeitava a modernidade da vida, mesmo que lhe trouxesse algum conforto material.

O casamento com minha mãe impediu-o de continuar morando em precárias casas de fazendas falidas. Foram-se os infinitos grãos de café, as casas e elas, as fazendas, pro beleléu.

Improvisou sem custo, precárias camas pra dormir. Fez das noites estreladas seu teto. Seu grosso e surrado poncho foi abrigo inseparável das chuvas fortes e do frio intenso. Fez também algumas concessões para a vida, eu reconheço. Poucas.

Suas estradas foram pisoteadas por bois e vacas em incontáveis números. Não teve tempo para admirar as paisagens. Eram tragadas pelo escasso tempo para tocar a boiada e pela poeira.

As precárias leitura e escrita, desatualizadas ao longo do tempo, foram responsáveis pela contabilidade de seus ganhos e perdas. A seu modo, num grosso livro de capa preta, fazia o que chamava de escrita.
Foram vencidos pelo cansaço, pelos prejuízos. Tanto o livro como as contas foram abandonados literalmente às traças. Despediu-se então dos bois, vacas, terras e da luta pela sobrevivência.

Ao longo de sua existência conseguiu alguns trocados. Oriundos de um mísero lucro com a venda de gado, sobras de milho, arroz, feijão e de alguns capados, os porcos colocados para engorda. Aí, sim tirava com imenso prazer aquelas imensas notas da guaiaca e as guardava com todo o cuidado num grande cofre de cor verde exército, com segredo e tudo. Ocupou espaço privilegiado num canto do quarto de dormir dele e de minha mãe, quase afundando o chão de assoalho das velhas casas em que moramos.
Lá guardava também papéis inúteis, amarelados pelo tempo, escrituras de bens que já nem mais eram seus e um sem número de promissórias assinadas por seus queridos e exploradores amigos.
Foram deixadas em troca de suas poucas reservas.
”Ao amigo não se nega nem palavra e nem dinheiro” dizia.

Era feliz a seu modo. Sempre teve visão particular a respeito da vida. As perguntas que fazia eram invariavelmente por que e para que cujas respostas jamais procurou saber ou esperou por elas. Não se preocupava com conseqüências. Inconseuente, não era. Ingênuo, sim.
Por que estudar? Pra que ter casa própria? Por que ter conta em banco? Pra que fogão a gás se os de rabo e à lenha cozinham a comida muito melhor? Pra que carro novo se um velho Fusca pode andar pelos sítios e pelas ruas da cidade? Por que saber mais coisas da vida se as que sabia já eram suficientes?

Dessa maneira os seus pra que e por que foram fazendo parte de seu dia a dia até que parou de perguntar a si mesmo e aos outros. Já não precisava mais. As perguntas tornaram-se afirmações. A velhice o estava alcançando.

Sua maior riqueza, contabilizava, eram seus amigos. E mais, as histórias vividas quando jovem nas fazendas de café, seu sobrenome que valia mais do que qualquer documento assinado e sua pequena família: eu e minha mãe.
Dinheiro, pra que muito, se o pouco que possuía era suficiente para a exígua colaboração que dava para sustentar a casa?

Trabalhou duro na terra, puxou arado em lugar do animal, cavou fendas para fazer brotar sementes e esperou por longo tempo a chuva cair. Olhar as nuvens no céu foi uma de suas esperanças...

Enquanto isso o salário de minha mãe-professora deu-nos a condição de uma vida modesta. Nunca soubemos o significado de sobras e nem da escassez. Garantiu-me diploma universitário e a “aposentadoria virtual” de meu pai, assim como hoje eu diria, mesada.
Nessa marcha, papai jamais tomou conhecimento de qualquer assunto relacionado a seus direitos e deveres previdenciários. Pra que... Por que...?

Lentamente foi percebendo que seus braços não tinham mais a força necessária para dominar cavalos, conduzir um arado pela terra ou conter um estouro de boiada. O sítio que tanto prazer lhe dera fora vendido e a aposentadoria da lida não tardou a aparecer. Compulsoriamente.

Os amigos se chegaram mais. Havia até tempo sobrando... E assim divertia-se com a gritaria no jogo de truco das tardes de domingo, no jogo de bocha que ganhou um campeão sem medalhas e no banco da praça como um grande contador de estórias. Não tinha mais dinheiro na guaiaca. Nem no cofre. Alguns trocados enfeitavam seus bolsos.

Consegui, não me lembro como, convencê-lo a procurar algumas testemunhas do passado. Deveria reunir provas que atestasse seu trabalho na lavoura. Fez sem muito interesse e com a certeza de que jamais poderia gozar os benefícios que um minguado salário mínimo lhe daria.

Em pouco tempo foi informado de que estava apto para tornar-se um “aposentado” de fato, como me dizia. O Funrural, como se chamava o fundo responsável pelo seu rendimento mensal apenas lhe fez uma exigência legal. Foi chamado por uma funcionária do Banco para a abertura de conta.

O diálogo, como me relatou com seriedade, foi o que segue:

Seu Orlando, em que Banco o senhor tem conta?
Não tenho conta em Banco.

Em nenhum Banco?
Não. Guardo o pouco dinheiro que tenho em casa, num cofre. Minha mulher e minha filha têm conta em banco.

Então o senhor compra a crédito em alguma casa comercial. Tem carnê?
Não compro fiado em nenhuma casa comercial. Não tenho carnê. Se tenho dinheiro, compro. Se não tenho, não compro.

Mas então o senhor já comprou a prazo em algum lugar, mesmo que tenha sido há alguns meses.
Não tenho dívidas, assim como não tenho dinheiro.

Bem, então... pra fazer o cadastro...
Já sei, pra fazer o cadastro eu tenho que ter dívidas...

Humm... não é bem assim, são as exigências do Banco, uma referência para sabermos quem é o senhor...

Olha moça. Eu sou muito conhecido aqui na cidade que é pequena. Não nasci aqui mas fui aqui criado. Eu me casei aqui também nessa cidade e minha mulher é professora. Minha filha é assistente social em Campinas e se quer mais referência sobre minha pessoa pode ir até à bocha lá no fim da avenida do Quartel. Pode ir também na praça da Matriz e conversar com meus amigos. Pode ir também no Bar Azul, no Ponto Chic que é onde tomo meus aperitivos todos os dias. Precisa mais?

Não houve nenhum comentário às suas palavras. Nunca. Nem eu que fiquei incrédula com seu relato. Tentei explicar-lhe, mas parei no meio da primeira frase. Não havia resposta que precisasse ser dada. Não havia mais nem por que e nem para que.

O cadastro foi aberto e ele recebeu sua aposentadoria por longos e longos anos. Verdadeiramente sentia-se aposentado.

A vida tentara lhe mostrar que os devedores é que têm crédito. Não acreditou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário