segunda-feira, 5 de abril de 2010

DONA ALICE E SEUS GATOS




DONA ALICE E SEUS GATOS

O Gato de Alice no País das Maravilhas e os Gatos de Dona Alice representaram para mim a fantasia, os sonhos e os desejos de menina.
Dona Alice era professora primária. Aposentada. Estampava em seu rosto resquícios da autoridade desse papel, embora sua voz já soasse trêmula, morna e mansa, vinda lá de suas entranhas. Seu envelhecimento já era notado. Tinha os cabelos brancos enrolados num “birote” junto à nuca. Pele muito branca pela ausência de sol. As saias longas, até o tornozelo não deixavam à mostra seu corpo franzino e os óculos de grossas lentes evidenciavam que sua visão já enfraquecera.
Dona Alice era tão conhecida e tão popular na cidade, que por vezes as pessoas ficavam confusas: seria pelo tradicional sobrenome de família, seria por ter sido uma irrepreensível professora ou então, quem sabe, pelos seus... gatos?
Não havia dúvidas que o motivo era mesmo, por esses incontáveis felinos que adotavam sua casa. Ou teria sido dona Alice escolhida por eles?
Era grande amiga de minha mãe e por conta daquela amizade entre professores, nós a visitávamos com frequência. Sair a passeio, dona Alice raramente o fazia. Dizia que suas pernas não a ajudavam e que a subida da rua José Bonifácio era “pesada” para seus tantos e tantos anos. Desconfio que tivesse apego indisfarçável aos gatos, que reclamavam de suas curtas ausências.

Lembro-me que aí pelos meus sete ou oito anos, quando minha mãe me convidava para “visitinha à dona Alice”, meu coração se enchia de alegria. Que poder teria aquela mulher sobre uma criança?
Hoje, transcorridos os anos da infância, reconheço que não era bem dona Alice quem me atraía. Vez ou outra, por gentileza trocava uma ou outra palavra comigo, como qualquer criança, pelo fato de já ter se fartado delas ao longo de sua vida de professora...
Mas para mim, os seus gatos... Meu Deus do Céu! Como me sentia atraída por eles.
Lembro-me que enquanto ela e minha mãe conversavam, entre curiosa e atônita eu percorria sua velha casa, ali no começo da Rua do Sapo, uma das primeiras ruas da cidade que ainda mantinha o leito de terra batida. As paredes já apresentavam os vestígios do tempo. Suas pinturas estavam gastas, quase apagadas. Magicamente renascia uma nova tonalidade amarelo-encardida.

Sob os olhares complacentes da velha professora, eu me esgueirava pé-ante-pé pelas salas e mais salas da casa a procura deles... os gatos. Não era lá tão difícil encontrá-los. Deparava-me a cada passo com um, outro e mais outro e algumas vezes os via nos espreitando como quem simulasse um cochilo. Misturavam-se às velhas e “puídas” almofadas, sonecando sobre o piano já silencioso ou faziam dos móveis antigos da sala de jantar seus poleiros prediletos. Na cozinha, a preferência era pelos fogões de rabo, como eram conhecidos os fogões a lenha: invariavelmente aquecidos com pequenos pedaços de paus secos.
Ressonavam também sobre os já encardidos tapetes da sala e por que não, sobre a cama de Dona Alice, o lugar preferido dos mais velhos. A colcha até já havia mudado de cor, incorporando a seus fios brancos, o marrom encardido das prolongadas ausências de troca. Ela já pouco se importava porque se num dia estava limpa, no outro já servia de poleiro para seus gatos.


Entregara sua vida aos seus domínios. Sentiam-se donos da casa. Sentir é somente o modo de dizer, porque na realidade eram os seus legítimos donos. Apropriavam-se dos espaços sem pedir licença.
Ah! quanto mistério envolvia essa relação... O que saberia dona Alice sobre esses segredos felinos que não revelava a ninguém?

Mas o que me intrigava, era o forte e característico odor de casa antiga, escura e do xixi de gatos. Esse odor vindo de toda parte de sua casa, já fora incorporado ao rol de outros aromas característicos, porque eu acreditava que os gatos também percebiam as de dona Alice. Eram solidários nessa troca.

Xixi de gatos... O odor no ar. A manifestação da professora, com sua voz doce e já frágil para nos servir uma xícara de chá com um quentinho pedaço de bolo, eram motivos para que minha mãe rapidamente alegasse outros afazeres. Despedia-se com uma pressa maior do que na realidade tinha.
-“Ela não lava as mãos e na comida deve ter tempero de todas as cores de pelos dos gatos...” dizia-me ela em tom sussurrado, como fosse para dona Alice não perceber.
Mas como deveria ser gostoso aquele bolo com uns poucos pelos de gatos pelo meio e o chá com leve odor de xixi, pensava eu, em meus desejos ingênuos de criança...

Enquanto viviam de maneira simbiótica, dona Alice e seus gatos não tinham tempo para preocupações com a vida da cidade que crescia, que mudava, com pessoas que nasciam, que morriam, com quem chegava ou saía. Dona Alice também desconhecia que a voz corrente em cada canto, sussurrado ou pra quem quisesse ouvir era mais ou menos assim:
“Há gatinhos abandonados? Levem pra Dona Alice”
“Há gatinhos maltratados? Dona Alice os adota.”
“Há gatinhos famintos? Dona Alice os alimenta”
“Apareceu um gatinho perdido, é? Leve pra Dona Alice”
“Tem uma gata prenhe na rua? Leve para a casa de Dona Alice”


Dona Alice e seus gatos conviviam há muito e hoje eu me pergunto sobre a natureza de cada um: a de Alice e a de seus gatos. Seria ela um felino disfarçado ou seriam eles um pouco daquela mulher?

Dizem que gatos não têm origem conhecida e que simplesmente surgiram no mundo. Mistério não desvendado. Misteriosa também é sua intimidade: sete fôlegos, sete vidas e sete segredos a serem desvendados.
Essas dúvidas foram também as minhas certezas, as minhas verdades infantis que me acompanharam até a idade adulta.
Mas... Gatos?
Por que nunca tivemos um, unzinho só, para eu afundar minhas pequenas mãos em seus pelos fofinhos e poder chamá-lo carinhosamente por qualquer nome terminado em “inho”. É tão apropriado para gatos...

-“Não... filha.. Gatos não...” dizia minha mãe tentando me convencer


“Já temos cachorros em nossa casa, os seus e os de seu pai, para ajudá-lo na lida com o gado.” E tem mais: “Gatos não convivem em harmonia com cachorros”

Sempre quis acreditar, mas tinha a certeza de que algum dia as coisas poderiam ser mudadas. Não sabia, no entanto, quando ou em que lugar.
Um tempo que eu nem poderia imaginar o quanto seria longo, concretizou minhas profecias de criança. A dolorosa passagem de minha mãe para outra dimensão foi acompanhada por uma gatinha de rua: Deínha. Vivia em nossa casa, convivia conosco, tendo entrado pelas portas do fundo, a que lhe foi aberta.



Gatos? Na infância não os tive mesmo. Mas hoje, todos aqueles que foram acolhidos por dona Alice, usando de seus mágicos poderes, se apropriaram de minha casa e de minha pessoa-adulta. Saíram da Rua do Sapo e vieram morar comigo em meio às plantas e flores no pé da serra. Poderia ser aquele preto de profundos olhos verdes? Ou os de pelo amarelo ouro? E os rajados, os tigrados? Seriam os filhotes de cor cinza ou ainda aquela siamesa com os profundos olhos azuis da cor do céu que me fazem lembrar os de minha mãe?

Desvendar os mistérios da vida é despir-se da imaginação, da fantasia e da magia. Deliciosa é, contudo a permissão para entrar nesse mundo felino. Somente os escolhidos por eles terão a chave para se apropriarem de apenas uma parte do grande mistério da vida felina.
E a chave do segredo está sendo dada a mim, hoje, num maravilhoso aprendizado com os meus treze gatos. Meus?
Eles sim poderão continuar essa conversa. Sem dúvida...

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