domingo, 11 de abril de 2010

A ESPERA

colagem: Cidinha Souza Pinto


“Por quem espera, Tião?”
Pelo tempo...”.

“O que espera, Tião?”
O tempo passar...”.

Esse inusitado e improvável diálogo teria acontecido em algum momento da vida de Sebastião, o Tião, de algum sobrenome brasileiro: Silva, Souza ou Santos. Na pequena cidade perdida entre as montanhas era apenas conhecido por Tião Santo.

Perdera seu verdadeiro sobrenome pelos descaminhos da roça onde nasceu e viveu. Tomou emprestado um novo, de algum parente.
Estava perdendo também sua vida para o tempo, esse mesmo tempo que lhe enfraquecia as pernas, estremecia a voz e encurtava sua visão.

Já nem dava mais para alcançar o horizonte...

Mas Tião espera. Espera para caminhar alguns passos, nada mais do que isso, até aquela cadeira, sua velha e fiel companheira. Bem ali tão próxima de suas mãos...
Bastam alguns passos para posicionar-se de costas para ela e flexionar um pouco as pernas. Aí, sim, é só soltar levemente o corpo e estarão juntos. Ela, capenga igual a ele, fora de moda, decadente, manca e desnecessária à vida de qualquer pessoa, menos a dele.

Na pequena varanda da casa, encostados à parede, precisam um do outro para viver, como fossem um único ser à espera do tempo.
Tião e a cadeira: íntimos e inseparáveis, um casamento eternizado pela convivência.
Cúmplices, poderia afirmar.

Tião das pernas afinadas pela magreza excessiva, calças apertadas na cintura por um velho e surrado cinto. Camisa de mangas longas a proteger seus braços.
O chapéu branco de abas largas mistura-se aos cabelos brancos já ralos.
Os banhos diários há muito foram esquecidos. Mas para que banho, água limpa, pra que vestir-roupa, tirar-roupa, vestir-se e desvestir-se num vai-e-vem incansável do não-sei-pra-quê?

Ah! Tião dos por quê e para quê... Do tempo que não passa... Da espera, de que mesmo?

Passam os dias e caem as noites, num implacável e irreversível ciclo denominado vida. Ao anoitecer, vencido pelo cansaço de nada fazer e frente a frente com a esperança de nada esperar, Tião se rende, se recolhe.
Como num ritual entre dois velhos amantes, despede-se de sua cadeira que impassível continua em seu canto. Calada, obediente, acomodando-se solitária a se proteger do frio nas noites de inverno ou do calor intenso nas de verão..

Inevitavelmente faz um contato íntimo com a terrível sensação de imobilismo, de impotência e de abandono...

Poderia arrastar-se pela noite afora, conhecer as maravilhas de caminhar às cegas pelas estradas empoeiradas. Poderia deitar-se no capim molhado pelo orvalho, ali tão próximo que está do pé da serra. Poderia também molhar seus quatro pés nas margens do lago, deparando-se com as sombras noturnas que tanto a impressionam quando o vento agita as imensas árvores plantadas ao seu redor.
Diria até que poderia sentir de perto o perfume da madrugada que tão bem conhece...

Mas como dar vida a uma cadeira, se é apenas um velho objeto abandonado à sua triste sorte? Como foi parar naquele canto?
Sua memória já falha, como falham as memórias humanas a caminho da velhice. Sua importância para a vida é tão insignificante...
Útil é apenas a seu dono, que num ritual diário e previsível anuncia sua chegada: o inconfundível arrastar cadenciado de chinelos...
Despenca seu corpo sobre o frágil assento sem sequer um olhar ou um afago. Nunca fora seu confidente. Sequer conhece seus pensamentos, seus desejos...
Paradoxalmente homem e objeto estão unidos por um único traço: o tempo. Do passado, do presente, da inutilidade, das lembranças, das perdas mais que dos ganhos. Indissolúveis os elos que os unem.

Com o que se ocupa Tião Santo senão com o tempo a passar? Que incansável vigília durante todo o dia!

O sono chega. Mansamente. Então o dia já passou? pergunta-se Tião.
Para que essa preocupação se quem se ocupa do tempo noturno são os insones, os notívagos, os poetas e amantes que precisam da lua pra sonhar? Então, dorme Tião durante toda noite... dorme para chegar rápido o dia seguinte e esperar o tempo passar...

Sua vista já está cansada de tanto olhar o infinito e nele se perder. De tanto esperar pelos sonhos, permaneceu acordado. Ah! Mas a linha do infinito é imutável. Dito tem tempo de sobra para contemplá-la e está ali, à sua frente, ainda que sua vista cansada alcance apenas o meio da rua, bem perto da varanda de sua casa.
Seu horizonte ficara tão próximo de si que bastam alguns passos para tocá-lo.

Seriam assim os horizontes da velhice?

Pra que enxergar lá longe se daqui nem dá pra ver o tempo passar?”

Alegra-se de quando em quando. Pela rua poeirenta poucas pessoas transitam a pé ou de carro. Vão para lá, mas como demoram voltar...
Pra onde vão? De onde vêm? Qual a duração do tempo da espera? A poeira da rua, calma e mansamente vai abaixando.
Tudo volta ao mesmo cenário.
O olhar de Tião acompanha os passantes até ali, na primeira curva. Até ensaia com sua voz inaudível o “huuummmdiaaaa...” ou “taaarrdee” na sua maneira de dizer “o bom dia” ou “boa tarde”.
Lembra-se do tempo... Não consegue defini-lo. Apenas sente que ele é o tempo, é o momento que já passou...

- “Que dia é hoje, Maria?”
- “Que dia foi ontem”?

- “Hoje é sábado”
- “Ontem foi sexta, pai”.

As respostas soam distantes. Que importância tem para ele o calendário, o relógio ou o tempo que marcam?

Maria desliza a vassoura sobre o chão. Tião alisa sua cadeira, gira o corpo franzino pra cá e pra lá à procura de uma posição mais confortável. Arruma o chapéu sobre a cabeça e estica as mangas da camisa. Pronto. Prepara-se para mais um dia da semana para ver o tempo que não passa, passar.

“Que dia é hoje?”.

Não há mais respostas. Apenas o silêncio e o tempo que não passa. Perdem-se de si mesmos e se reencontraram em Tião.

Enquanto isso, a espera.
“Por quem espera, Tião?”
Pelo tempo...”

“O que espera, Tião?”
“O tempo passar...”.

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