sábado, 10 de abril de 2010

MEU PAI E O MAR


Meu pai foi de encontro ao mar, assim mesmo, sem metáforas. Em sua estréia, em sua avant première de banhista. Não posso dizer que tenha sido ameno esse encontro. Literalmente deixou marcas.
Não foi por falta de oportunidades ou de convites, mas transpor a distância entre Pirassununga e o litoral, era impensável, acostumado que foi a vencer distâncias em lombo de cavalo. Para ele o oceano ficava do outro lado do mundo e o percurso era medido em léguas....
Por mais que lhe dissesse que já havia asfalto, que seus cavalos já haviam sido aposentados, que os carros modernos são velozes e que as distâncias são medidas em quilômetros, olhava-me com espanto e incredulidade.

E`... mas, ficar em casa de parente.... ou ficar em casa de amigos... ou ir para um hotel “cheio de frescura”. Não, nenhuma das hipóteses o mobilizava. Nem a ele e nem à minha mãe, que o acompanhava nessa filosofia de vida, não porque acreditasse, mas os longos anos de casamento a tornara conciliadora. Prá que atritar?
Viam o mar por meio de fotos que lhes mostrava, dos cartões postais ou de meus relatos. Não fazia parte de suas vidas, voltadas para o cotidiano de uma cidade sem pressa.
Conversa vai, conversa vem, tempo vai, tempo vem... e o mar continuou batendo forte suas ondas contra as areias da praia, contra as rochas. Modificou paisagens e quem diria, as resistências de meu pai e minha mãe.
Nos seus quase 70 anos de idade, uma promessa cumprida. Uma viagem planejada, ensaiada, anotada passo a passo por ela como fazia, pra não esquecer nenhum item.

Como tenho preferência pelo litoral norte onde as praias podem ser escolhidas à vontade seja com mar bravo, mar manso e mar parado, fomos para Caraguatatuba. Um aviso eu dei para meu pai, um único: Vamos juntos às praias. O lugar onde vamos ficar é praia pra se ver o mar de longe. O Mar é violento, as ondas são fortes, a areia é grossa etc etc. Os banhos, vamos fazê-los em outro lugar. Ponto.

Final de tarde. Verão, com o sol ainda a esquentar a cabeça, areia e água. Uma figura, única naquela praia deserta. Meu pai. De calças compridas e camisa, sem lhe faltar a cinta, sandálias de borracha nos pés e um ray-ban que mais lhe dava um ar de mafioso ou agente detetive. Não se importava. Tinha achado na rua e era com esse que desfilava em seu Volkswagen Fusca ano 67 pelas ruas da cidade.

Para manter-se equilibrado na areia, afastava uma perna da outra a cada passo dado e cruzava os braços na frente do corpo. Era ele contra o mar. Um verdadeiro paredão.

De longe, mas não tão distante, eu o observava. Deliciava-me com aquela cena. Meu pai fazia suas verdades simples, como simplesmente vivia sua vida.
Impunha-se contudo, ingenuamente às leis da natureza naquele momento. Sabia pegar boi à unha, domar cavalo. Mas o mar...

Onda vai e vem e ele mais um passo... Unzinho só e volta à posição inicial, de sentinela aguardando novo ataque... Mais um passo... nova onda até sentir os respingos daqueles violentos estouros... Póhhh... Póoohh... Póóóhhh.

O que vi foi a terrível trombada de meu pai com as ondas, com o mar... Brigaram, se reviram pra cá e pra lá, combateram um duro combate. Domava cavalo bravo e pegava seu touro à unha...
Conseguiu sair, sei lá ou foi jogado, atirado à praia. Vivo, com arranhaduras e lamentando “aquela filha da puta da onda veio quando estava vendo um barquinho passando...”

Em sua caminhada de volta, tentava compreender a diferença entre um touro bravo e uma onda de um mar qualquer, que nem o nome sabia. Bois, conhecia um a um pelos nomes, pelas raças ou pela braveza.
Deixara pra trás o Ray-ban, o relógio, o chinelo novo e a carteira com dinheiro. Pouco, mas dinheiro.
Trouxe arranhaduras pelo corpo e muitas estórias pra contar. Inacreditáveis, se eu não tivesse sido a testemunha...


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