quarta-feira, 7 de abril de 2010

OS VELHOS BITINGA





Seus primeiros nomes ou sobrenomes, os de registro ou de batismo como se dizia, talvez nem mais se recordassem. Até os raros parentes próximos e já tão distantes também deles se esqueceram. Mas que importância tinha um papel sem significância que atestava nascimentos? Juntaram-se a tantos outros no fundo de um velho baú. Inúteis.
Ficaram assim conhecidos, desde toda vida de marido e mulher, apenas como “os Velhos Bitinga“.
Conhecido também era o lugar onde moravam. Mas fácil de achar não era não. Dizia-se ali pelas bandas dos sítios vizinhos que “não moravam, mas se escondiam”. Em tempos remotos foram proprietários de um pedaço de terra produtiva a quem denominavam apenas sítio. Sem nome ou sobrenome como seus donos.

Essa pequena propriedade cravada em meio a quiçaças e espinhadeiros fazia vizinhança de um lado, com nossas terras e de outro com as do Sr. Ludwig. Alemão de pouca conversa. As divisas, se faziam sem cercas. Cresceram aqui e ali arbustos espinhentos, os arranha-gatos. O acaso os fez brotar. A Natureza deles cuidou. O acaso os fez ficarem ali.

A porteira há muito reduzida a alguns pedaços de paus apodrecidos e sustentados por arames enferrujados, mal se sustentava. Já não rangia mais. Perdera o canto e o encanto em algum lugar do tempo que ali também se escondera... Eram cúmplices dos Velhos Bitinga.

- “Pra que porteira, velho Bitinga?” perguntava-lhe meu pai.

- “Pra que a vaca e o boizinho num saia pra estrada. E pra ninguém entrá aqui sem sê cunvidado...”.

Ah! Velhos Bitinga... quem os visitaria se não mais percorriam as velhas estradas já desfeitas? E nem mais pastoreavam. O tempo os esquecera ali à própria sorte, como se sorte fosse a tradução mais perfeita do abandono.

É... mas domingo sim, domingo não, era o dia esperado por mim, ainda criança que, com meu pai, minha mãe e nossos cachorros, fazíamos a costumeira visita. Uns pedaços de carne assada, espigas de milho e alguns pães feitos em casa.
O facão afiado papai nos ajudava a transpor parte de um pequeno matagal. Cortávamos parte do caminho.
Vencer aqueles poucos quilômetros que nos separavam dos Velhos Bitinga era uma aventura em meio à selva. Revivia os filmes de Tarzan, Jane e sua inseparável Chita. Pulava daqui, saracoteava dali, enfrentava animais ferozes, molhava os pés no riacho. E me amarrava em imaginários cipós... Me perdia e me achava em seguida. A brincadeira invariavelmente terminava transpondo-me para as telas do cinema Odeon, aquele que ficava na praça da cidade.
Dos filmes em preto e branco voltava para as incômodas alfinetadas em minhas pernas. Impunham-me a árdua tarefa de tirar um a um os infindáveis carrapichos e picões grudados na roupa.

O sinal de que estávamos nos aproximando da velha casa era um cheiro característico de fumaça de fogo queimando lenha quase verde. Vinha de uma pequena chaminé de latão enegrecido.
Enfeitava as telhas encardidas da casa. Ganhava o espaço, tomava sol e vento. Desvencilhava-se do fogão de rabo plantado num canto da cozinha. Perdera-se também na contagem dos dias em que já fora pintadinho de vermelhão, essa tintura caipira. Era pra combinar com as de então brancas paredes.

A cozinha era escura e mal cheirosa. Um forte odor impregnava o ambiente vindo hoje eu sei, do cheiro da velhice sem banhos, das carnes e sebos pendurados num fio de arame para secarem. Vinham também, das cinzas acumuladas no fogão e das escurecidas paredes reluzentes de gordura...

Havia ainda os picumãs, assim chamadas as teias de aranha. Fixavam-se no teto e desciam, pendentes. Caiam como pequenos véus negros, o que tornava ainda mais sinistra aquela vivenda. Balançavam acompanhando o vento como cortinas de um pequeno palco à espera dos atores.

Os Velhos Bitinga e sua casa incrustada entre duas velhas mangueiras... Antítese da vida. Um conto de fadas. Sinistro diante do olhar de uma criança. Encantador, melhor dizendo. Magicamente eu me transportava para o indescritível mundo do imaginário fantasmagórico. Nele habitavam bruxas malvadas, morcegos, vampiros, gnomos e sacis... Escondiam-se entre teias de renda negra...
À noite sonhava, tinha pesadelos e fazia xixi na cama.

No chão da varanda da casa as marcas de um antigo piso. Corroído pelo tempo sustentavam um banco de madeira carunchada. As pernas mal pregadas faziam-no balançar. Seriam assim as gangorras feitas para os velhos? Acompanhava seus lentos movimentos cadenciados, a pender seus corpos ora para a direita, ora para a esquerda...

Mal nos sentávamos na mureta da varanda já vinha o café servido em canecas desbeiçadas. Tremulavam nas mãos nodosas de Dona Bitinga, assim mesmo, chamada sem o primeiro nome. Estatura miúda escondia os cabelos por um lenço roto. No rosto, os sulcos evidenciavam o tempo que ali passara sem pressa. Dona Bitinga... Perdera seu primeiro nome e seu sobrenome de moça solteira e de família.

Comíamos pedaços de bolo de milho assado em forno barrigudinho, desses feitos de barro à moda caipira. Alimentava-o com lenha verde que me fazia arder os olhos. Fumaça sem fogo. Aprendia ensinamentos novos.
Mas que delícia essa mistura de sabores e odores... Sabor da infância, do manjar dos deuses, do “quero-mais-um-pedaço”, sob os olhares permissivos de meus pais:

Não se faz desaforo aos donos da casa.” diziam-me.

Permanecíamos por longo tempo na varanda, lugar de receber visitas, porque a casa... Bem, deveria estar ocupada por bruxas, vampiros, morcegos e tantos outros fantasmas. Habitavam meu imaginário e a estranha vida dos Velhos Bitinga.
Aquela casa já se tornara seus domínios. Colando meus ouvidos às paredes podia ouvir suas risadas escandalosas. Sentia o vento frio de suas asas arrepiar meus cabelos encaracolados...
Adentrava sem medo a esse mundo indevassável. Desconstruía as histórias fantásticas. Eram reais, eu sabia. Não havia muros e cercas. Entregava-me e me confundia com a realidade dos morto-vivos, a dos Velhos Bitinga...

O domingo se acabava e os dias seguintes se sucediam. Não havia sequer a necessidade de serem assinalados na “folhinha”. Continuava imóvel pendurada numa parede da sala. Os anos que ali estavam marcados já haviam deixado o tempo para trás.

Não fazem passeio aos domingos, velhos Bitinga?” perguntava-lhes meu pai.

Pra onde ir, Seu Orlando Boiadeiro... Inté arriá a égua... inté atrelá na carroça... Inté fazê a égua andá porque é empacadera... Então nóis vai ficando por aqui memo...” respondia o velho, encarando o infinito.
Invariavelmente um roto chapéu preto já desfeito pelo tempo encobria sua cabeça. Cigarro de palha, quase a lhe queimar os lábios escondidos por descuidado bigode.

O português reinventado adquiria maravilhosos contornos mágicos, sons dissonantes, somente desvendado e compreendido pelos iniciados. Sentia-me parte de uma antiga sociedade secreta.
Tempo que corre, que voa sem ter asas para voar. Exceto para os velhos Bitinga. Continuavam a alimentá-lo com a vida que lhes escapava sem que percebessem... Era pra se pensar se a vida também não se sentia abandonada, esquecida lá por aquelas bandas...
-“Por que não plantam uma rocinha de arroz ou feijão, mesmo que for pro gasto, Velhos Bitinga?”
-“Ih... Seu Orlando Boiadeiro... Inté prantá... Inté dá.... Inté coiê...”

A velha sabedoria, tão envelhecida quanto eles, sempre guardada a mil chaves. Inviolável. Imutável, como se a imobilidade lhes garantisse um lugar na vida.

Ah! velhos Bitinga, que me deram ao longo da vida a possibilidade de repetir suas frases. Sem culpa. Quando o ócio, a preguiça, a mãe de todos os vícios me invade, escuto o eco de suas vozes: “até fazer... até ir... até voltar... até... até...”.

Num dia desses que a gente se vê crescida, ouvi dizer que enquanto descansavam do nada fazer, se depararam com a Morte. Senhora de todos os vivos, a Magrela os espreitava atrás da porta. Disseram-lhe com o fio de voz que ainda lhes restaVa:

Ih... Magrela, Coisa Ruim, Tinhosa... Sai pra lá... Deixa nóis aqui pruquê ...inté morrê, inté carregá... inté os parente chegá, inté enterrá, inté fazê missa... E quem vem pra pregá a cruz na terra prá deixá nóis em paz?”

Que decepção para aquela Mensageira. Os Velhos Bitinga viveram para sempre. A casa era mesmo habitada por vampiros, morcegos, bruxas e sacis. Foram encantados pela magia dos estranhos odores e pela renda de teia negra.

CIDINHA SOUZA PINTO
MONTE ALEGRE DO SUL

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