quarta-feira, 7 de abril de 2010

PÃO COM DESEJO



Ivaneide não é o que posso propriamente chamar de amiga, como as que se trocam confidências, que exibem a marca da cumplicidade.
Não, Neide como era apelidada é como um meteoro. Aparece e desaparece. Deixa contudo sempre um rastro. Quando menos esperamos nos encontramos. O acaso fala por nós e ela fala mais do que ouve. Desfia toda vez, como num rosário, sua vida, pontilhada de mistérios dolorosos, gloriosos e gozosos. Quem reza em seu terço, contudo não consegue sair dos primeiros... O pensamento voa, as palavras criam asas e o sono é o grande vilão ameaçador.

Neide é um enigma a ser decifrado. Quando nos encontramos, eu a olho com atenção. Fico me perguntando onde estão ou estiveram seus traços femininos. Não quero referir-me a uma beleza física rara, incomum, mas procuro algo que me chame a atenção, um resquício harmônico, um conjunto chamado corpo: cabeça, tronco e membros.

Possui estatura baixa e seu peso há muito fez os ponteiros das balanças penderem mais para a direita. Faz relatos de seus sofridos regimes, dietas alimentares, coleciona livros de receitas lights e diets.
Quando se pesa, diz-me inclinar seu peso para a esquerda, na esperança de que os ponteiros invertam sua direção. Milagres ainda não aconteceram.
Seu rosto é singular. Talvez tenha sido inspirado na lua em fase crescente. Apresenta-se quase cheio. Os cabelos curtos e finos já começaram rarear...
Sua fala mansa , pausada e de maneira morna me faz lembrar as tardes mordacentas de domingo. Assim, eu até ouso dizer, sem querer magoá-la, que não fosse pela sua história de vida e pelas suas tragicômicas estórias, ela é daquelas pessoas que todos conhecem sem precisar muita descrição: um bom remédio para a insônia logo na primeira frase da conversa.

Mas... observando esse seu jeito, tenho conseguido desvendar ao longo de nossas vidas, grandes descobertas. Posso afirmar que venceu a corrida contra a má sorte, o desamor, o desalento e a pobreza. Suas estórias não têm fim. Continuam sendo contadas no presente, porque Neide é a expressão da vida multifacetada, colada pedaço por pedaço , tropeçada e refeita.

Nasceu pobre e como se dizia em minha infância, “pobre-de-marré-de-si”. A comida rara era dividida fraternalmente entre seus três ou quatro irmãos.
Passou a adolescência sonhando com o dia seguinte e literalmente comendo o “pão que o diabo amassou”, sem direito a recheio. Mas o desejo... Ah! pão com mortadela, manteiga, presunto, salsicha, queijo, salame, carne moída, com... com... Hum!!! Era a rainha das receitas de pão com qualquer coisa. Já se antecipara ao desconcertante mundo virtual.

Casou-se jovem, muito jovem, mas não escapou do destino como supunha. Dispensou marido, perdendo a luta contra o alcoolismo. Sozinha, criou os dois filhos, tentando livrá-los da predestinação da pobreza. Não queria a repetição dessa história comum. História de pobre não tem começo e nem fim. É o mundo virado do avesso, o dedo na ferida aberta, a miopia divina, um círculo fechado. Fechado mesmo?


Tempo passa aqui, tempo passa ali, uma ajuda daqui, outra ajuda dali, paga-não-paga-conta do mês, paga-no-mês-seguinte... Com as bênçãos dos anjos que sobrevoavam sua cabeça num determinado dia, tornou-se funcionária pública. Ah! Teria sucesso na vida, dessa vez. Emprego fixo com carteira assinada e trabalhando com dignidade para o governo. Faria carreira, subiria na vida, enfim.


Pobre Ivaneide! Olhou para o céu cheio de nuvens esquecendo-se que o inferno e o purgatório estavam bem próximos. Teria que ser antes de tudo purificada, aceitar o sinal da cruz em sua testa. Olhar-se no espelho para que lhes fossem reveladas as marcas do sofrimento...


E então... A dureza do serviço braçal deixou-lhe pouco tempo para pensar em seus sonhos. Afinal eram somente sonhos... Limpou chão em número maior de vezes do que o número de dias que havia vivido. Não desistia. Ajoelhou inúmeras vezes. Fez de cada gesto de submissão uma oferta para Deus e outra para o diabo. Um dos dois seguramente dela iria se lembrar.

Limpava o chão e olhava o horizonte. Tinha modelos a seguir.
Queria ser assistente social, como aquelas que via todos os dias pisar no chão que esfregava pra lá e pra cá...

Aprendera em sua cartilha pessoal, a essência dos desejos e, sabia que com eles não se brinca. Não brincou. Traçou seu rumo. Escolheu uma direção e arriscou. Desvendou os olhos para reconhecer cada pedra e cada flor de seu caminho. Anotou no caderno, com a letra sinuosa o seu dia-a-dia em que sublinhava com traços fortes a palavra Desejo

Dessa trajetória, uma lembrança, talvez a mais forte: o pão puro amanhecido e nem cobrado, como única refeição do dia, do dia-após-dia, consumido lentamente na padaria da esquina da faculdade onde estudava. Era acompanhado pelos diálogos inesquecíveis com a balconista:

- Um pão francês, por favor...
- Só um pão? Com o que?
- Pão com... desejo !!!
- Desejo?
- É... desejo de mortadela, de manteiga, de presunto, de salsicha, de queijo, de salame, de carne moída, de... de...

Por alguns anos Ivaneide continuou sendo a rainha das receitas de pão com muitos recheios. Mas o seu predileto e inesquecível sempre foi o Pão com... Desejo!!!
Assim estava escrito em seu caderno. Risco forte para palavra poderosa. Marcava o gado com ferro incandescente. Assim escreveu, descreveu e venceu. Relata para mim sua vida. Uma vez mais. Desejo sublinhado.

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