segunda-feira, 12 de abril de 2010

QUANTO ME DÃO PELO PRIMEIRO LANCE?



Alcindo Lébeis... Mas poderia ser o “seu Doca”. Amigo de todos. Não era doutor nem político. Era sim, uma autoridade em seu ofício. Não havia escapatória. Ricos ou pobres num dia qualquer bateriam à sua porta.
Era o “defunteiro”, o “caixãozeiro” como se dizia ou o “papa defuntos”.

Vivia a contradição: vida e morte. Chorava nos enterros e se alegrava nas quermesses. Era o “leiloeiro” de prendas mais requisitado. Fazia por devoção, pela fé nos santos que davam nome às quermesses.

Alto, muito alto e magro, cabelos lisos e alourados, tinha a pele avermelhada. Casado com dona Joana, amicíssima de minha mãe, dessas que se vêem todos os dias, uma na casa da outra para jogar conversa fora. Entrevam sem bater.

As primeiras notícias: quem morreu, quem se aproximava da morte, quem dela havia escapado. Ao som das marteladas, Seu Doca ia dando forma às caixas de enterrar defuntos. Serviço rápido, era sinal de que o morto era pobre. Madeira fraca, coberta de tecido roxo e de apodrecimento fácil.
Ah!... Mas... se as marteladas fossem sonoras e intermináveis, então era pessoa importante ou muito rica. Madeira boa, de lei, pra durar muito tempo. E colocava enfeite prateado aqui, cruz ali, alças acolá.
E mais, o cenário final como complemento: os imensos castiçais, os panos roxos ou pretos. Para serem colocados na paredes da casa onde era velado o morto. Velório público era coisa para a capital. Quanto trabalho, seu Doca Lébeis...

Bem... ouvir as marteladas na madeira me dava arrepios no corpo. Doía só de pensar na morte. Era criança demais, medrosa demais.
E se faltasse o ar dentro daquela caixa, por mais bonita que as pessoas achassem?

Entrava na casa de dona Joana com minha mãe somente pelo corredor de fora. Passar pela sala, nem pensar. Logo ali, no cômodo ao lado é que seu Doca colocava todos aqueles caixões, alinhados um ao lado do outro. Mostruário, para que o morto, se pudesse, escolhesse o de sua preferência.

A curiosidade encontrava uma forma de passar pelos vãos de meus dedos. Sabia de cor e salteado onde era a oficina, conhecia os toc toc das marteladas. Ficava de orelha em pé para saber das novidades funerárias. Ah, sabia também como eram colocados aqueles caixões na goela de um grande carro. A porta era fechada em seguida com um forte tranco.Meus olhos não viam as cenas, mas minha memória as registrava.

Seu Doca não sente medo porque é o ofício dele, como é o do seu pai pegar boi no laço. Também não sente medo.” dizia-me minha mãe, tentando encontrar uma resposta para minhas não-perguntas.

Bem, a mesma coisa ou coisa parecida eu sabia que não era. Melhor era pensar em seu Dóca como o leiloeiro de quermesses...
Ah! isso sim é que era alegria.

“Filha, hoje tem quermesse de São Sebastião”... E lá ia desfilando toda a santaria: Santo Antonio, São Judas, Nossa Senhora, São José. Tantos Santos, que um mês era pouco para tamanhas homenagens.
Páteo de terra batida, todo enfeitado com bandeirinhas juninas, mesmo que fosse janeiro ou novembro, que importava.
Barracas feitas com bambu, cobertas com folhas de coqueiro, bem amarradinhas uma na outra. Vendiam o que os olhos viam, o olfato sentia e o pouco dinheiro pagava. O cheiro de carne assada, os espetos que serviam de longos palitos para os dentes e os olhos maiores que a barriga.
Ah... as barracas dos jogos de argola, do coelhinho que entrava e saía das tocas, das pescas de peixes laminados em água de serragem... Tinha também a barraca dos doces, da maçã do amor, que fazia quebrar os dentes de leite das crianças, ainda molinhos. Manchavam a boca de vermelho qual um baton que ainda não podia usar.

Ah! Meu Deus, o bom mesmo era ouvir de longe a voz de Seu Doca Lébeis e encontrar logo, logo a barraca do leilão de prendas.

“Mamãe, lá está o bolo que a senhora fez e embrulhou no papel celofane vermelho...”
“Mamãe, aquela não é uma perna do porco que o Seu João Leme deu prá quermesse?”
“Mamãe, papai, fale alto com seu Dóca para eu ganhar aquela casinha de boneca...”

Tanta alegria que não cabia num peito de menina, tão pequeno para conter uma quermesse inteira... Sentia que me faltava o ar.

Seu Doca a cada momento ajustava o tom da voz, aprumava o corpo e ia escolhendo a sequência das prendas a serem leiloadas. As mais interessantes e caras para o momento de maior movimento da festa. Um grande negociador para os santos...

Lá ia ele: bolo de fubá na mão direita, braço erguido acima da cabeça, percorrendo com passos seguros a volta toda do interior da barraca, em seus quatro lados bem medidos. Voltava, girava, cumprimentava fulano e beltrano, assegurando que o lance viria mais cedo ou mais tarde.

Soltando a voz, dizia aquelas palavras mágicas:

Quanto me dão pelo primeiro lance?”

Que bobinha: Entendia qualquer coisa e no final da frase .... "de relance..." Indecifrável a fala, a sentença nessa estranha Língua Portuguesa. Mas o que ela continha...

“Quanto? Quanto?”.

“Dois cruzeiros...” Ecoava uma voz anônima, certamente de olho naquela prenda...

“Dois cruzeiros por este maravilhoso e cheiroso bolo feito pelas mãos de artista de dona Maria Silva...”

“Quanto? Três? Três cruzeiros pelo bolo, para ser comido com a família e me convidar... Quanto, Seu Zé Rosa? Cinco? Cinco cruzeiros pelo bolo, ofertados pelo seu Zé Rosa, nosso querido e rico fazendeiro... Quem dá mais? Quem dá mais?”

E rodopiava, dançava, virava, falava e refalava, andava com a bandeja de bolo prá lá e prá cá.

“Sete...”
Ouvi bem? Sete cruzeiros pelo delicioso bolo ofertados pelo Sr. Osvaldo de Campos nosso querido advogado... Quem dá mais?... Dou-lhe uma... Dou-lhe Duas... Vou entregar... Dou-lhe três.”

Pronto. Pegava um pequeno martelo e dava uma pancadinha no canto da mesa de madeira.
Levou o bolo de fubá nosso querido doutor advogado.

Ah! Mas o bom mesmo era esperar pelo frango assado, tostadinho. Recheado com farofa, embrulhado em papel celofane transparente para que pudesse ser visto. Já estava mais para frio. Mesmo assim, cada vez que papai o arrematava, era uma delícia voltarmos para casa e lá devorá-lo todinho, despedaçando-o com as mãos, sentindo aquela pele fazer crec crec na boca...

Seu Dóca leiloeiro, seu Dóca caixãozeiro... Onde estará agora batendo seu martelo para as prendas e pros defuntos, dando o conforto para quem morreu e alegria para os vivos, engordando as contas dos padres em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que importava.

Seu Doca da saudade de minha infância, de dona Joana, de meu pai e de minha mãe.... Eu o vejo numa barraca de bambu coberta com folhas de coqueiro. Nas mãos... talvez alguma prenda especial: lugares no céu para aqueles que chegaram depois dele:

“Quanto me dão pelo primeiro lance?”




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