segunda-feira, 5 de abril de 2010

SANTOS E SANTARIA


Maria Teresa é o nome de minha mãe. Filha de imigrantes italianos. Brasileira de nascimento, e de intenso amor pela pátria. Nunca lhe fora ensinado o italiano. Durante o tempo que convivemos, poucos traços dessa cultura permaneceram em nosso dia-a-dia. Mas em sua memória... Ah! Sim, esta era fantástica, presente e atualizada para contar-me fatos sobre seus pais, e sua vida com mais onze irmãos no Hotel Central em Pirassununga. Por conta de ter que ajudar a criá-los se casou aos 35 anos. Ousadia para o ano de 1938.
Pelas fotos posso afirmar que era bonita. Linda mesmo. Seus cabelos eram castanhos e ordenados em pequenas ondas. Seu olhar, iluminado por um par de profundos e intensos olhos azuis, lhe emoldurava o rosto.
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Praticou durante toda vida a religião católica, seguindo quase à risca os seus ensinamentos. Quase, porque ao evitar ter mais que uma filha, lhe fora negado Sacramento da Comunhão. Aos olhos da Igreja Católica foi pecadora. Carregou essa mágoa até o fim de seus dias, quando então foi absolvida num dia qualquer para poder entrar no reino dos céus. Manteve-se, contudo, fiel às suas crenças.. Encontrou maneira própria de interlocução com os céus: foi fiel seguidora leal de santos, de todo jeito e tamanho, de nacionalidades diferentes, servidores de Deus na terra, abnegados e despojados de riquezas.
Ah! também havia os anjos, adultos ou crianças, pequenas almas que se desprenderam de seus corpos sem terem cumprido vida longa na Terra.. A lista não deveria parar por aí, mas minha memória me deu um basta. Eram imagens que ela colecionava e as arrumava uma ao lado da outra num pequeno espaço sobre a sapateira, num canto de seu quarto.
Como não bastasse aquela “santaria” na linguagem simples de meu pai, ainda havia o perigo de incêndio em nossa casa. Uma lamparina daquelas com óleo sobre água iluminava as imagens dia e noite sem parar.
Mamãe também colecionava figuras e orações de santos, candidatos a santos, meninos-anjos milagreiros, lembrancinhas de Primeira Comunhão. Ah... havia ainda as recordações de parentes e amigos que partindo para a outra vida deixavam seus ”santinhos” na terra distribuídos pelos familiares.

Ah! Minha mãe... lembro-me do livrinho de orações encapado com plástico azul, cujas páginas já estavam amareladas e ensebadas. Não tinha mais capacidade de conter tamanha coleção. Num sistema de rodízio, aqueles que iam se distanciando do presente, encontravam outra morada numa velha caixa de sabonetes, misturando os perfumes da vida e da morte.
Em muitos momentos de minha infância tive curiosidade exacerbada para mexer e remexer naquela velharia. Enchia-me de temor de que algum deles saltasse para a vida e viesse atormentar-me em sonhos. Alguns eram feios demais, velhos demais e, além disso, usavam roupas esquisitíssimas.
Quantas e quantas vezes, já adulta, remexendo naquela já envelhecida caixa eu enchia minha mamãe de perguntas:
- Quem é este santo, mama?
- Quem é esse menino com uma argola luminosa na cabeça?
- Por que colocaram uma foto tão feia de tio Miguel, mama?
- Pra que guarda tudo isso?

Jogá-los fora, jamais!

Respondia-me com seriedade e profundo respeito aos que já não pertenciam a esse mundo. Contava-me suas histórias da maneira como lhe tinham contado estórias. Acredito que inventava algumas passagens, porque havia santos, santaria e santidade demais...
Interessante que apesar dessa ligação com santos, imagens e figurinhas, nunca percebi minha mãe como beata. Ela tinha lá sua lógica. Eram seus confidentes, amigos, companheiros, salvadores e protetores. Faziam parte de sua família. Dava-lhes abrigo. Protegia para ser protegida.
Quando me dispunha a alguma arrumação em seu relicário, ameaçando aquelas pobres figuras de ir para o lixo, ela me dizia: “não presta jogar santos fora”. Essa expressão “não presta” era sua marca registrada.
Rapidamente eu guardava aquele tesouro na caixa de sabonetes para alivio deles todos. E meu também...
Bem... Não parava por aí sua devoção. Ela também diversificava seus protetores. Dedicava-se incansavelmente a rezar novenas, trezenas, terços e mais terços e rosários. Ufa... Sabia de cor todos os mistérios gloriosos, gozosos e dolorosos, mas insistia em lê-los no livrinho de capa azul.
Sua atenção naquela rezaria, porém, era meio difusa. Não se importava em rezar e conversar comigo ou com papai. Afirmava com convicção que não perdia a concentração. Cochilava às vezes entre uma sessão e outra. Com o terço na mão, e livro de orações aberto com as fotos dos beatos querendo escapar daquela prisão de páginas e letras, deixava a cabeça tombar levemente, depois mais pesada até que.... A soneca após o almoço era vital...
“Dormindo, mama?”
“Hã... hã...? Não, filha, só rezando.”

Tinha uma rotina inabalável. Levantava-se às cinco horas da manhã em qualquer dia que fosse da semana. Sua primeira atividade era trocar a água do pote de barro, fazer café coado em coador de pano, sentar-se e trazer para junto de si o livrinho de rezas de capa azul. Aí ninguém segurava... A santaria tinha que acordar cedo...
“Santinhos gostam de café, mama? Se já deu café pra todos eles, não vai sobrar pra nós...”
“Não brinque com coisa séria...”

Que delícia de bronca. Abençoada. Suave e doce como ela sempre fora. Se ternura tivesse olhar humano, seria igual a seus olhos: azuis da cor do céu em tempo de primavera... Sem nuvens.
Ah! Santos e Santaria!!! Tinha tantas devoções que dava para distribuí-las:
Quando eu entrava no carro voltando para minha casa em Campinas, levava-me até ele e me dizia:
“Filha, vá com Deus, Santinhos, Anjo da Guarda, Nossa Senhora, São José, Menino Jesus, Santa Terezinha e...”
E eu me deliciando com aquela ladainha lhe respondia:
“Mama, eu agradeço a proteção, mas o carro já está cheio. Ficam alguns para a próxima viagem...”
Invariavelmente as despedidas tornavam-se menos dolorosas para nós.

Ah! mas a invocação de sua santaria não ficava por aí, não. Quando me acompanhava até o quarto, na hora de dormir organizava novamente um desfile, uma parada por ordem de importância na hierarquia celeste:
“Dorme com Deus, Nossa Senhora, Santinhos e Anjo da Guarda”
“Mama, a cama é de solteiro, está cheia. Não cabe mais ninguém...”

Em seus incontáveis relatos sobre sua vida, dizia-me que um dos presentes de casamento que mais havia gostado era uma gravura de Jesus Cristo no Jardim das Oliveiras. “É aquela figura de Cristo sentado e admirando a maravilha da Criação”, dizia-me ela.
Eu a conhecia muito bem. Era uma gravura, talvez uma reprodução de algum pintor famoso, sei lá. A moldura era grossa, imitando madeira entalhada em tom dourado envelhecido. De tão popular, instalou-se em cada casa da família brasileira.
Não sei dizer se gostava ou não daquela peça, mas com toda certeza ela não enfeitara as paredes da casa de meus pais, desde minha infância. Ocupava a parede da cabeceira de suas cama.
Esteve presente em todas as casas que moramos e sempre foi transportado como a peça mais preciosa
É... O tempo passou. E aquela imagem lá, intacta, parada, imóvel, desafiando os anos e as andanças. Mamãe dizia que era milagre. Posso dizer que eram zelo e cuidado em demasia.
Mas se for para falar em milagre... Bem foi o que aconteceu com meu pai. Logo após a partida de minha mãe para encontrar-se face a face com sua legião de santos e santaria, o quadro continuou no mesmo lugar, pendurado, mas talvez meio esquecido. Sua protetora tinha partido e meu pai não era lá muito ligado em assuntos de santos.
Num determinado dia quando fui visitá-lo, percebi que seu rosto estava levemente machucado.
“O que foi, papai, esse machucado no rosto? Caiu, ou o que...
“Ah... filha, foi o filho da puta daquele santo da sua mãe. Despencou do prego da parede e caiu na minha cabeça. Acordei com um barulho danado, sem saber se estava vivo ou morto, porque ao meu lado, estava ele, sentado e me olhando”

Pela primeira vez nesses incontáveis anos o Santo desvencilhou-se da moldura, do vidro e da parede. Criou vida. Despediu-se de sua antiga morada.
Nunca mais o vi ou perguntei para meu pai sobre seu paradeiro.
Tenho convicção de que se juntaram os três em algum lugar do Universo. Estariam livres, enfim das amarras. De onde estão, podem contemplar o Cosmos, essa maravilhosa invenção de Deus com espaço de sobra para os Santos e a Santaria.

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