sexta-feira, 23 de julho de 2010

ALGUMAS LEMBRANÇAS... SE A MEMÓRIA NÃO FALHAR...FACULDADE DE SERVIÇO SOCIAL -TURMA 1966

ALGUMAS LEMBRANÇAS... SE NÃO ME FALHA A MEMÓRIA...


cidinha souza pinto

O nome era pomposo... Faculdade de Serviço Social Agregada à Universidade Católica de Campinas... Agregada e segregada, porque nos constituíamos um grupo à parte, com o domínio exclusivo das Missionárias de Jesus Crucificado... E ainda mais, os “guetos” chamados de “pensionatos”, as tão conhecidas residências universitárias para nós que não tínhamos família em Campinas. Tinha o São José, na Culto à Ciência e como se esquecer do que se localizava nas dependências da própria Faculdade...
O Vestibular também era exclusivo... Alunos selecionados... História de vida pesquisada... Exame e seleção feita na e pela própria Faculdade, sob a regência e a determinação seletiva de Madre Maria de Mesquita Sampaio, de saudosa memória.

- Ano de 1963 - admissão na Faculdade de Serviço Social... Pra nós uma grande conquista. Para os demais universitários integrados à Universidade Católica de Campinas, exibindo-se no famoso Páteo dos Leões, apenas uma escola chamada de “espera marido”. Doía muito...

- A seleção... Entrevista inicial para que fosse conhecida e depois reconhecida a vocação para o trabalho com os pobres... E realizada com Irmã Benilda ou Irmã Perolina...

- Assim foram chegando as primeiras imagens, foram sendo delineados os primeiros perfis, nossos modelos a serem seguidos: as alunas mais velhas, como fossem pequenos mitos criados naqueles limites... a Zeza Mangili, Maria Helena Bonavita, Lizete Castanho, Sandra Forster, Carminha Teixeira, a Benê da Biblioteca... E vai por aí...

- E a Irmã Petronila? Sempre a postos com o talão de recebimento de mensalidades prontinho pra ser preenchido... Dia de pagamento... meninas.

- As primeiras aulas, os primeiros contatos com matérias tão diversificadas... Geografia Agrária, Direito Civil, Direito do Menor, Medicina Social, Psiquiatria, Filosofia e Ética, Sociologia, Psicologia, Serviço Social de Casos, depois de Grupo e ainda mais tarde, o famoso DOC – Desenvolvimento e Organização de Comunidade... Supervisão, estágios, provas, notas e lá se foram os anos...

- De repente, sem que esperássemos, soubéssemos ou quiséssemos, a chegada inesperada da renúncia de Jânio Quadros, o golpe militar, a ditadura, as prisões de nossos amigos e colegas.
Como compreender que nós, trabalhadores sociais ainda em formação fossemos calados. Tiraram-nos a possibilidade da teoria, da prática, da manifestação, da liberdade, da democracia em que fomos gerados e criados.
Acreditávamos na Igreja Libertadora que se apresentava para nós por meio da Encíclica Rerum Novarum de João XXIII.Tínhamos lá nossas referências dentro dela em movimentos que surgiam e se solidificavam – JUC, JOC, Mundo Novo ou em seus representantes como o Padre Busch, Padre Narciso Ehremberg, Padre Lauro Sigrist, Padre Antonio Celso Queiroz...
Como entender nossa formação para o social tendo que conviver com essa bipolaridade chamada Estado e Igreja?

Sobrevivemos... Corpos, mentes e espírito. Conquistamos e ganhamos novos espaços geográficos, sociais, profissionais, nossa identidade profissional.
Assim traçamos caminhos diversos. Ora nos perdíamos e nos encontrávamos e nos reencontrávamos, fossem esses encontros nas lembranças ou nos abraços...

Em cada uma de nós algumas lembranças foram permanecendo ou até mesmo se apagando... Mas umas tantas permanecem e enquanto escrevia, muitas cenas foram se concretizando em minha memória. Continuaram ganhando vida...

- Ah... os professores... Irmã Perolina, Cônego Caran e seu inseparável livro de Filosofia, do Regis Jolivet, encoberto por sua pasta marrom e logo desvendado pela Vic que se antecipava às leituras (ditados) em sala de aula...
- Tinha o Doutor Adil Samara, de Medicina Social, turco de olhos verdes, careca, solteiro... Lindíssimo, pelo menos para nossos padrões de beleza.... Era seguido ao final das noites de terças feiras pela Vic, por mim e acho que pela Terezinha Carvalho. Vic tomava emprestado o carro de seu pai para essas aventuras...
- Ah... Tinha também o Everardo Nunes, branquelinho, feinho solteiro, de Pesquisa Social... e vítima da Vic, que copiava cartas de amor de um pequeno livro e endereçava a ele...
- E aquela beleza física e até no nome, vamos recordar, do Reginaldo Zaccara de Campos, solteiríssimo também, e que nos massacrava com a Sociologia contida num livro de capa amarela chamado “Homem e Sociedade” de quem mesmo? Otávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso...

- É... tinha ainda o professor Dr. Enzo Azzi, italiano, da Psiquiatria e depois o Dr. Roberto Pinto de Moura... E mais... O Dr. Darcy Paz de Pádua, o Dr. José Vicente e o Dr. Buriti, especialistas em áreas diversas do Direito...
- A Irmã Perolina da supervisão, das aulas de Serviço Social de Casos, o Dr. José Pinheiro Cortez e depois a Ondina Bordin, de DOC - Desenvolvimento e Organização de Comunidade...
- A Irmã Isa Brito e depois a Isa Leal, de Serviço Social de Grupo, a Jacy Padilha de Cooperativismo... E quem mais? Memória falha...
-É... mas tinha também o estudo apurado das técnicas de atendimento à família no inesquecível e eterno “caso Sousa”... Tema para provas e chamada oral...
- E mais... para dar garantia de notas às suas “filhinhas”... a eterna Madre Maria de Mesquita Sampaio, mãezona, protetora, acolhedora, dona, proprietária da formação de suas alunas... O véu branco sempre lhe caindo pela testa, cobrindo-lhe os olhos e automaticamente sendo puxados para trás...
Ainda ouço sua voz... “Filhinhas... o professor tal não pode comparecer e então eu vim dar aula no lugar dele...” E as aulas se constituíam em nos lembrar o dia do pagamento das mensalidades. das taxas, e até a cobrança de uma folha de papel almaço para as provas ou um enchida de caneta tinteiro com a inesquecível tinta Parker...
Controlava ainda nossas vestimentas. Calças compridas nem pensar... ou as conversas no páteo, as fugidas antes de soar a sineta para o término das aulas...

-E por falar em sineta... quem me vem à lembrança? A Laís Dutra Teixeira dando o aviso para terminar a aula e para recomeçar outra...
- A irmã Versina e Margaridinha, da cantina, o Centro Acadêmico e depois denominado Diretório Acadêmico...
- Os namorados... Celinha e Zé Carlos... Rute e Dema... Zezé Moriconi e Silvinho... Manor e Norberto, Maria Antonia e Antonio Augusto, Sonia Silveira e Aldo... E tinha a Terezinha Carvalho e o Angi... A Cidinha Fonseca, de Piracicaba e o paraguaio que lhe escrevia “adoro-te” e ficou conhecido na classe como “doroty”... A Carmen Silvia e o Luiz e ela cantando....” oh luiz dos meus olhos, desejo em flor... E tinha o João, único homem da classe de namorico com a Vera Párice... Quem mais? O que mais?
É... tinha também a Maria Antonia Caprioli com seu carro Gordini, na época nosso objeto de desejo... O Citroem da Terezinha Amarante ou... de quem mesmo?
- E as “viajantes”, nossas colegas que residiam fora de Campinas e que se sentavam ao lado da porta para as fugidas antes do sinal...
- Os estágios, as provas, os relatórios, os pequenos grupos de amigas que se formaram e se mantiveram...
- E logo a conclusão do curso, a formatura, as despedidas, as perdas – irreparáveis, inaceitáveis, as lembranças, as fotos guardadas, perdidas, encontradas... Os anos se acumulando em nossas vidas, fazendo-se constar em nossos corpos, em nossos rostos, numa constante mutação... construção de projetos de vida, idealizados, modificados, concretizados...

Por essas razões, pelo passado, pela saudade, pelos fatos esquecidos e retornados à memória, pelo abraço que não foi dado, pelas novas formas de vida, pelo carinho, pelo esforço de cada uma de nós, pelas nossas mudanças, estamos aqui hoje. Tenho certeza de que um pedaço de nossas vidas levaremos conosco em nossa despedida.


Essas lembranças e quem sabe outras, fazem parte de minha memória história, do meu passado e do meu presente. Partilho hoje com cada uma para que novos fatos, lembranças e pessoas possam ser aqui colocados, enriquecendo momentos importantes de nossas vidas.

Cidinha Souza Pinto – maio de 2006 – Encontro comemorativo do 40º ano de nossa formatura.
Restaurante Villa Paraíso – Joaquim Egydio – Campinas -SP


SE VOCÊ SE LEMBRAR DE FATOS, CURIOSIDADES, FAÇA UMA POSTAGEM AQUI NESTE BLOG... VAI VALER A PENA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário