sábado, 26 de fevereiro de 2011

A HISTÓRIA DA CIDADE DE ESPÍRITO SANTO DO PINHAL - SUA FUNDAÇÃO - MEU TATARAVÔ ROMUALDO DE SOUZA BRITO

Este livro, escrito pela historiadora Marli Bartholomei, radicada na cidade de Espírito Santo do Pinhal, narra da história do fundador dessa cidade: Romualdo de Souza Brito, meu tataravô. O livro pesquisa a origem da Família, tendo a autora dedicado a pesquisas por longos anos, analisando documentos, entrevistando pessoas e percorrendo o longo caminho de Romualdo de Souza Brito, seus descendentes e outros personagens que ajudaram a fazer a história de Pinhal. O livro encdontra-se à venda e poderá ser feito contato direto com a autora pelo telefone: 19 -36513387.
Cidinha Souza Pinto















O ROMANCE DE PINHAL- A SAGA DE SUAS FAMÍLIAS
CAPÍTULO I

O FUNDADOR DE PINHAL
A FAMÍLIA DE ROMUALDO DE SOUZA BRITO


Para escrever sobre a história de Pinhal que, como toda a história, é um
romance, surge em primeiro lugar à figura de seu fundador, Romualdo de
Souza Brito. Pelo lado materno e paterno a história de Romualdo se confunde
com a história de São Paulo, ou melhor, é a sua própria história.
Pelo lado materno, sua ascendência (no Brasil) começa com nada
menos que João Ramalho e Bartira filha do cacique Tibiriçá, o principal da
região.
Pelo lado paterno, descende de Antônio Rodrigues, companheiro de
João Ramalho que também se casou com uma índia, filha de Piquerobí outro
grande cacique da época. Essa índia foi batizada por José de Anchieta, com o
nome de Antonia Rodrigues.
Esses dois portugueses eram náufragos ou degredados, não está bem
esclarecido, mas o fato é que em 1.510 já estavam aqui estabelecidos.
Não quiseram viver no litoral onde já havia alguns portugueses, mas
preferiram se juntar aos índios do planalto. Segundo um cronista da época:
“Era um desses aventureiros, como tantos outros houve outrora, que buscavam
a vida, arriscando-a desassombradamente e procurando, entre perigos, um
viver libérrimo, dissoluto, gozado sem as peias de uma sociedade regular e
sem testemunhas importunas”.
Esse “viver libérrimo” iria escandalizar os padres que alguns anos depois
subiriam o planalto. João Ramalho tinha porte atlético andava nu como os
índios e exercia autoridade entre eles e os outros brancos como líder e chefe.
Paralelamente a Bartira (a principal) casou com quase todas as filhas de
caciques da região, inserindo-se numa instituição social, cultivada de longa
data entre os índios - o cunhadismo – que era um pacto de sangue, que
garantia o compromisso de ajuda de toda a parentela, na paz, mas
principalmente na guerra.
“Segundo o aventureiro alemão Umbrico Schimidit, autor de uma
“Viagem ao Rio da Prata” ele poderia reunir num só dia, 50 mil índios para uma
guerra, enquanto o rei e seus lugares tenentes, nem com 2.000 homens
poderiam contar”. Depois de muitos embates, os jesuítas chegaram à
conclusão: era melhor tê-lo ao lado, ou não teriam coisa alguma na região.
João Ramalho, mais que pai de seus próprios filhos pode ser
considerado com razão o verdadeiro patriarca dos paulistas, principalmente os
das antigas cepas. Nos primeiros dias de janeiro de 1.554 subiram o “mui
áspero caminho” a serra de Paranapiacaba, nome indígena da Serra do Mar,
um grupo de padres jesuítas espanhóis comandados por Manoel da Nóbrega.
Com eles ia Anchieta, então um jovem de 19 anos. Para se estabelecerem,
escolheram sob orientação dos índios, um lugar convenientemente distante de
João Ramalho, que morava com sua gente onde mais tarde seria Santo André.
O local era a confluência de dois rios, numa elevação, onde fizeram pequena
casa de 10m por 14m. Perto dali, convidaram o chefe Tibiriçá que se mudou
para onde mais tarde seria o Mosteiro de São Bento. Tinham o rio Anhangabaú
de um lado, que seria mais tarde canalizado e o vale se chamaria Vale do
Anhangabaú. Nas suas margens frescas surgiriam plantações de chá. A ponte
que o atravessava, bem mais tarde substituída por um grande viaduto, se



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chamaria Viaduto do Chá. Esse lugar fazia confluência com outro rio, o
Tamanduateí, onde o Anhangabaú despejava suas águas. Esse rio
Tamanduateí, posteriormente seria também canalizado, correndo por cima dele
a Rua 25 de Março. Foi feito um porto para embarque em suas margens, na
descida de uma forte ladeira chamada Ladeira Porto Geral, nome conservado
até nossos dias. Mas voltamos a nossa humilde casinha de um só cômodo
destinado a servir de escola, dormitório, cozinha e despensa. Havia
preparativos para sua inauguração, que se daria no dia 25 de janeiro, com uma
missa. Essa missa assinalava simplesmente o início das atividades do colégio
no Planalto. Para nenhum dos 12 padres presentes ocorreria a idéia de que
eles estavam participando do que seria convencionado o ato de fundação da
cidade de São Paulo, nome escolhido por ser o dia 25, consagrado a esse
Santo. O nome indígena do local era Piratininga e, a princípio, denominou-se
de São Paulo de Piratininga.
De cima da colina via-se o rio Anhembi, mais tarde –Tietê – que iria levar
esse povo irrequieto, sertão adentro, para novas e espetaculares aventuras.
Dois desenhos de Charles Lanseer, feitos entre1825 e 1826. “Gente de São Paulo” mostra um
tropeiro com seu bastão, e a “Senhora de São Paulo” se revela como um dos melhores estudos
da vestimenta feminina da época.

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CAPÍTULO II
A FAMÍLIA DE ROMUALDO MUDA-SE DE SÃO PAULO

Voltando ao que nos interessa nesses capítulos, que é a saga da família
de Romualdo de Souza Brito, vemos que eles permaneceram na aldeia por
mais uns 100 anos, ou seja, por quatro gerações, desde que João Ramalho e
Bartira deram origem ao ramo materno do pioneiro, e seu amigo Antônio
Rodrigues – casando-se com a filha do Cacique Tibiriçá, originou o ramo
paterno do nosso Patriarca.
Mudaram-se, então, repentinamente para Mogi das Cruzes.
Depreendem-se duas coisas desse fato: que as famílias dos dois
ascendentes de Romualdo, materna (João Ramalho) e paterna (Antônio
Rodrigues) continuavam unidas. Segundo: deveria haver um forte motivo para
que eles deixassem ao mesmo tempo a terra de seus antepassados por mais
de 100 anos, para um lugar menor e menos importante.
Pesquisando para ver o motivo de tão drástica mudança, vamos ver o
que se passava na vila por esse tempo.
Nos primeiros tempos de São Paulo, só existia uma fonte de renda:
caçar índios e vende-los como mão de obra escrava para o litoral. Quem não
fizesse isso estava fadado a viver de pequenas plantações de milho, mandioca
e batata doce, ou pesca no rio.
A cidade era paupérrima e, por viver longe do litoral, e da influência
européia, tinha característica mais de aldeia indígena, havia oito índios para
cada português. Falava-se o tupi-guarani tão ou mais que o português das
matriarcas índias. Dormia-se em redes e comia-se comida de índio, ou seja,
mandioca e milho. Faltava o sal e o angu sem sal e a farinha de mandioca
eram a base da alimentação, comiam-se também ratos e tanajuras (iças) fritas.
“A esse respeito foi feita, mais tarde, uma irônica quadrinha: comendo iça,
comendo cambuquira vive a afamada gente paulistana, e os tais a quem
chamam caipira que parecem não ser da raça humana”.
O tupi só foi suplantado pelo português lá pelo século XVIII e as redes
pela cama, no século XIX.
Era o tempo das grandes bandeiras, chamadas então de entradas.
Raposos Tavares e Manoel Preto apreenderam de 8 a 9.000 índios nas
missões espanholas do Guairá, matando velhos e crianças que não podiam
acompanhá-los. Nessa entrada, engajaram-se todos os homens aptos a pegar
em armas, ficando em São Paulo 25 deles, segundo relato da época.
Somente dessa região das l5 missões jesuítas, estimava-se que tenham
vindo de 30 a 60.000 cativos.
Manoel Preto comprou terras perto de São Paulo erigindo ali uma capela
em louvor a Nossa Senhora do Ó, de origem portuguesa, onde seria o futuro
bairro da Freguesia do Ó.
Raposo Tavares tinha uma fazenda em Quitaúna.
Fernão Dias – o das esmeraldas- possuía terras onde fundaria Santana
de Parnaíba e Parapicuíba. A família espanhola Arouche Rendon possuía
fazendas do lado direito do Tietê, com uma casa pintada de verde. As barcas
ao passarem paravam na “casa verde”,dando origem ao bairro desse nome.


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O restante das terras, que seriam futuros bairros, era ocupado por outros
bandeirantes, agora fazendeiros, que lá moravam com suas famílias e a
indiada que plantava trigo, milho e mandioca, na paz, e guerreava nas épocas
das disputas constantes.
Encerrando essa fase, Raposo Tavares encetou uma bandeira ao
Paraguai pelo Peabiru, antigo caminho dos índios, onde os padres se
refugiaram com o remanescente da indiada. Mas estes agora reagiram,
espantando o bandeirante sertão adentro. Consta que ele andou pelo Peru,
Amazonas, Pará, e há quem diga que ele precisou ir até Portugal para
encontrar um navio para São Paulo e chegou a casa três anos depois magra e
doente, não sendo reconhecido por ninguém. Morreu algum tempo depois
arruinado pela sua última empreitada. Essa viagem só não seria de todo inútil,
por ter demarcado o que seriam os contornos do Brasil, aumentando
consideravelmente o traçado original.
Por falta de “peças de trabalho” para serem caçadas, a economia
procurou alternativa.
Descobriu-se, então que o trigo se dava bem no clima fresco do planalto.
Não que os paulistas gostassem do pão de trigo. O negócio deles era a farinha
de mandioca e o angu de milho, mas todo o litoral e principalmente a província
do Rio de Janeiro disputavam o produto, pelo seu grande número de europeus.
Em volta do centro primitivo de São Paulo cresceram as fazendas de
trigo, tocadas por índios que foram as mãos e pés dos paulistas na época. O
trigo era transportado serra abaixo por eles, em cestas de 30 quilos. Futuros
bairros como Ipiranga, Pinheiros e Luz foram as primeiras plantações de trigo
com respectivos aldeamentos de índios.
Por falar em Luz, essa fazenda e futuro bairro foi fundada por uma
bisneta de João Ramalho e Bartira, que, por esse feito, ficou registrada na
história. Ana Camacho casou-se com Domingos Luiz, o carvoeiro, assim
conhecido por ser da freguesia de Santa Maria da Carvoeira em Portugal, onde
se cultuava Nossa Senhora da Luz. Comprando essas terras, então fora de
São Paulo, sua primeira providência foi erigir uma capela, em louvor a essa
santa, dando origem ao que seria Convento e bairro da Luz, conhecido por ter
Frei Galvão como benfeitor.
Por essa ocasião, São Paulo foi sacudido pela luta fratricida entre as
famílias Pires e Camargo - e “muitos moradores terminaram por fugir para
sertões e matos entregando-se a vila ao mais miserável estado”.
Voltando às nossas famílias, antepassadas de Romualdo, elas
passavam por dura fase. Em 1666, o patriarca de uma das famílias morreu em
entradas no sertão, e provavelmente, o outro patriarca tenha tido a mesma
sorte.
Imaginamos essas famílias, desoladas com as perdas e, nesse ambiente
decadente, pensariam mesmo em se mudar-mas para onde iriam? Despontava
Mogi das Cruzes como um dos grandes pólos de produção de trigo, com
vantagem de ter terras disponíveis.
Acabadas as esperanças de lucro fácil no sertão, nossas famílias
levantaram acampamento, e foram juntas tentar a sorte em novas paragens.
Dando asas a nossa imaginação, pensemos nessas pessoas despedindo-se da
sua cidade e de seus antepassados, dando uma última volta por ela.
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Como seria São Paulo naquela época? Não era mais uma aldeia de
índios...
Paço Municipal de São Paulo em 1628. Quadro a óleo de J. Wasth Rodrigues. Coleção
do Museu Paulista


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CAPÍTULO III
A DESPEDIDA DE SÃO PAULO, EM APROXIMADAMENTE 1670.
USO E COSTUMES DA ÉPOCA

Nossos amigos (acho que já podemos chamá-los assim) das duas
famílias ascendentes de Romualdo de Souza Brito despedem de São Paulo.
Eles vão para Mogi das Cruzes tentarem a sorte neste novo centro de
produção de trigo, que já fazia um bom movimento econômico na região. A
última volta pela cidade seria a despedida do lugar que os acolhera por quatro
gerações.O traçado da cidade enquadrava-se num pequeno triângulo, cercado
por um muro de taipa, para proteção de ataques indígenas, com uma igreja em
cada canto. Começaram pelo ponto número um – o Colégio dos Jesuítas, “o
Pátio do Colégio”, agora já ampliado e melhorado.
Passaram pela ladeira Porto Geral, porto esse às margens do
Tamanduateí aonde chegavam embarcações vindas do rio acima de São
Bernardo ou de Santos em seu último percurso, ou descendo para o Tietê.
Mais um pouquinho e chegaram a igreja de São Bento, então pequena
capela.
As ruas não tinham nome naquela época. As denominações eram feitas
pelo destino que as levavam como:Rua para São Bento ou por algum morador:
Rua do Ouvidor.
Caminhando pela reta que leva a São Bento (Rua São Paulo), verifica-se
que, nesse tempo, as ruas ainda não eram calçadas, e burros e porcos
andavam soltos por toda a parte, muros escuros eram mais numerosos que
casas.
Por sorte era domingo, e via-se excepcional movimento. Durante a
semana, a vida da cidade transcorria nas fazendas, onde os moradores tinham
suas belas casas, plantações e faziam suas festas. À cidade, só vinham no fim
de semana vender os produtos de suas plantações e artesanatos de seus
escravos, e-claro-ir à missa obrigatória do domingo. Durante a semana na
cidade, só permaneciam artesões e prostitutas, que, como toda cidade pobre,
tinham muitas. Domingo era o dia que senhoras “de família” saíam de casa
para a missa, nunca sem a companhia do chefe da casa, que seguia na frente,
a mulher e os filhos no meio, a criadagem atrás. A mucama levava um
tapetinho enrolado onde a senhora se sentava no chão, pois não havia bancos
nas igrejas. Elas ficavam no meio, e os homens nas laterais, em pé.
As famílias iam comprar alguma coisa para viagem na Rua das
Casinhas; onde era grande o movimento. Ali se vendia de tudo, em casinhas
uma ao lado da outra. Era carne seca, toicinho, trigo, milho, mandioca, potes,
redes, arcos, flechas e outros artesanatos feitos pelos escravos índios.
À noite, a rua tinha outro movimento também grande. As prostitutas por
ali desfilavam, envoltas em grandes mantos e os homens também com mantos
e chapelões que lhes preservava o anonimato.
Envoltas em grandes mantos e mantilhas, sempre negras, que lhes
escondiam o rosto andavam também as senhoras. Esse costume só seria
abolido 200 anos após, por decreto, pois, por vontade, não deixariam de andar
cobertas como as mulheres árabes.
Nossos amigos continuavam a caminhada um pouco incomodados com
as gelosias ou rótulas das casas abrindo-se sobre as calçadas. Rótulas eram
venezianas de treliças de ripas que abriam na parte de baixo e para fora como

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as que usam hoje. Permitia os seus moradores espiarem a rua, sem que os de
fora devassassem o interior de suas casas.
A esse respeito escreveu Castro Alves na época em que estudava na
Faculdade de São Francisco, muitos anos depois: “Se poesia está no espreitar
de uns olhos negros através da Rotulas dos balcões, ou através das rendas
das mantilhas, que em amplas dobras esconde as formas da moça, então a
Paulicéia é a terra da poesia”.
Mas, sem se ater à poesia, foram as rótulas e os mantos proibidos na
mesma época, em nome do progresso, mas somente 200 anos depois em
1874, no Governo de João Teodoro. Já o tupi, chamado de língua geral, havia
sido abolido bem antes, também por decreto, em 1759, não fosse isso
estaríamos até agora falando língua de índio, junto com o português.
Mas, do que o povo gostava mesmo, ricos, pobres, brancos e negros,
era de procissão. A mais importante era a de Corpus Christi. Como
preparativos do grande dia, ordenava-se aos moradores que tivessem suas
“testadas” (frente das casas) caiadas, limpas e varridas e balcões e janelas
ornadas com colchas de seda e, não o fizessem os moradores se tornariam
passíveis de seis mil reis de multa e 30 dias de cadeia. A mesma pena era
estendida aos que não comparecessem num raio de duas léguas (+/- 1
légua=6 km).
Passaram pela igreja de Santo Antônio na futura Praça do Patriarca das
poucas que resistiram até nossos dias. Pobre como era São Paulo, distantes
dos maiores interesses do Estado, não ostentava construções sólidas ou
artísticas.
Indo pela Rua Direita, chegaram a periferia da cidade. Na
Tabatinguera.Interessante o destino dos nomes. Esse local era freqüentado
pelos índios, muito antes de aqui chegarem os portugueses.
Dali tiravam a tabatinga, barro branco para fazerem seus utensílios.
Continuaram a usá-lo os habitantes de São Paulo, para suas construções e
para pintar suas casas, o que faziam molhando suas mãos na água,
esfregando no barro, e passando-as pelas paredes.
Esse nome se mantém até hoje como Rua Tabatinguera. Naquele
tempo, era um lugar preferido para passeios, nos limites da vila, de onde se
descortinavam os horizontes, com linda vista, descendo do platô para os
alagados da várzea do Carmo e indo para o Ipiranga e a Serra do Mar.
Passaram por fontes (na futura Rua Florêncio de Abreu) que
abasteciam a vila, rodeadas por vegetação, mas passaram depressa por ser
lugares evitados por famílias. As índias costumavam vir abastecer a casa de
seus senhores de água, e ai aconteciam coisas, como dizer... estranhas.
Homens vinham espreitá-las, e aí zás...sumia uma índia pelo mato.Nas atas
das câmaras estão registradas várias medidas repressivas a respeito.
Vejamos uma: “Nenhum homem, nem mancebo, de quinze anos para
cima, fosse às aguadas da vila”. Pelo número de registros das Câmaras parece
que não estavam obtendo sucesso...
Já ia a tarde pelo meio> As famílias estavam dirigindo-se às suas
chácaras, sítios ou fazendas, a pé, a cavalo, em burros ou carros de boi.
Alguma senhora, ou por estar doente, ou por se achar de classe superior, e
não poder andar como o resto dos mortais ia de rede, levada aos ombros por
dois fortes índios.


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Mesmo os homens que ficavam para uma esticada pela “Rua das
Casinhas”, não podiam se demorar. No inverno às 8 horas e no verão 9 horas,
soava o sino dando o toque de recolher. Tocava por meia hora, além da qual,
todo pedestre estava sujeito a pesadas multas.
Não se admitiam tochas acesas além desses horários. Era a mais
completa escuridão...
Nossas famílias se recolheram, pois tinham muito que fazer. No dia
seguinte de madrugada, sairiam com seus haveres, num carro de boi, rumo a
Mogi das Cruzes.
Começariam novas vidas em paz. Pelo menos assim pensavam eles, na
misericordiosa ignorância do que Deus guarda para o futuro. Logo os
acontecimentos que se seguiram mudariam totalmente não só suas vidas,
como a da província, do País e da Metrópole – Portugal.
Era assim que saía a família paulista à rua: na frente, o chefe, seguindo-se a mulher e os filhos.
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Nas igrejas não havia bancos. As mulheres sentavam
em tapetes no chão e os homens em pé nas laterais.



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CAPÍTULO IV
MOGI DAS CRUZES

A Rua Alegre de Mogi das Cruzes, foto de 1898, atual Rua Dr.Deodato Wertheimer.
Carregar o carro de bois não era obra difícil. Não havia mobílias. Camas
não existiam, somente redes pelos cantos da casa. Junto de cada rede, um
lugar para um foguinho para aquecer-se do frio noturno. São Paulo, cercado de
águas e matas, era muito mais frio que atualmente. Uma mesa, alguns bancos
e tamboretes, baú, potes, panelas e muitas armas, era no que consistia a
mudança. Desde muitos dias preparavam-se os alimentos que seriam
consumidos no longo trajeto.
A viagem foi penosa para as famílias. Os 70 km até Mogi das Cruzes,
eram feitos mais ou menos em 4 dias pelas tropas de mulas. O carro de boi
demorou mais, sacolejando pelos caminhos esburacados. Havia muitos pousos
pelo caminho, geralmente simples cobertas de palha. Armavam-se as redes e
se abrigavam do frio e chuva, como podiam. Não se cobrava nada pelo pouso.
O lucro vinha da venda de mantimentos e da troca de mulas estropiadas, por
outras descansadas.
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Saiam antes de o sol nascer e, quando esse já ia alto, paravam para o
almoço.
A gente paulista tinha um alimento prático para as viagens. Os índios
comiam macacos moqueados e uma pasta de farinha de mandioca embrulhada
em folha de bananeira, que duravam meses. Os brancos comiam coisa melhor:
farinha de milho com feijão, já então bem difundido, e nacos de toucinho, o tal
“virado a paulista”. Em favor de sua alimentação, tinham o fato de eles
coletarem muitas frutas pelo caminho. Eram goiabas, pitangas, gabirobas,
uvaias, a azedinha, bacupari, a doce e forte pindaíba e muitas outras conforme
a época.
Chegaram a Mogi das Cruzes as famílias de João Machado de Lima,
descendentes de Bartira e João Ramalho, ramo materno de Romualdo, e
Rufina de Moraes com seus filhos, sem o marido que morreu em bandeira no
sertão em 1666, - 4ª geração de Antônio Rodrigues, ramo paterno do patriarca.
A pequena vila de Mogi das Cruzes fora fundada 70 anos antes, pela
visão do governador geral, Havia boatos sobre ouro para os lados do sertão. A
única comunicação de São Paulo era a serra do mar para Santos. Fora
algumas vilas no entorno, nada mais havia senão matas ao redor da cidade.
Mandou, então, esse governador Gaspar Vaz abrisse uma picada que
propiciasse a entrada para o sertão em terra que seriam as Minas Gerais. Isso
foi feito em 1601. Gaspar Vaz achou bom o lugar, e fundou a Vila de Mogi das
Cruzes, a mais ou menos 3 km do rio Tietê, por ser esse pedaço um alagadiço.
Atravessando esse rio e, virando à esquerda para o norte, os homens foram
entrando cada vez mais sertão adentro em busca de índios, a principio.
Pela época da chegada das famílias, a pequena vila já apresentava
algum movimento, pela posição estratégica como entrada para os sertões. Em
seus sítios e fazendas produziam bastante trigo, algodão, pinga, açúcar,
marmelada, então, o doce mais apreciado, a ponto de seu peso ser sempre
adulterado; daí vindo o nome pejorativo. Rudimentares indústrias caseiras
produziam muito tecido, vinho, calçados com o couro curtido, cerâmicas,
canoas, arcos e flechas. Estas últimas muito usadas por brancos e índios pela
sua praticidade, leveza, silêncio e velocidade. Um índio disparava até sete
flechas no mesmo espaço de tempo que se carregava um arcabuz, que, de tão
pesado, precisava ser carregado por dois e apoiado num tripé por ter 1,75 de
comprimento.
Fabricavam também gibão e capacetes de couro de anta que os protegia
contra flechadas dos índios. Abasteciam as caravanas rumo aos sertões.
A vida transcorria sem maiores percalços, para nossos amigos que logo
entraram para o ritmo tranqüilo, mas laborioso da vila.
Mas poucos anos depois, em aproximadamente 1693, um fato
revolucionaria seus destinos.
Um mestiço que participava de uma bandeira no sertão, estando com
sede, abaixou-se à beira de um riozinho e, com uma cuia apanhou água. Com
a água vieram algumas pedrinhas pretas de limo. As grandes descobertas são,
quase sempre, feitas casualmente, mas por pessoas que prestam atenção.
Prestando atenção às pedras, o moço esfregou-as: eram amarelas – ouro - . O
lugar chamar-se ia Ouro Preto!
A conseqüência imediata foi a debandada que se seguiu a noticia da
descoberta de ricos veios. Os homens produtivos para lá partiram com o
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grosso de seus escravos. A conseqüência secundária foi a queda abrupta da
produção agrícola. O trigo desapareceu para nunca mais voltar naquelas
bandas. Pensou-se que o ouro traria muita riqueza para São Paulo, o que
houve foi o inverso. Se a pasmaceira e a pobreza tomavam conta da cidade, no
século entrante, elas se acentuariam.
São Paulo cumpriria sua sina de, povoando o Brasil, despovoando a si
própria, e enriquecendo o país e a metrópole, empobrecer a si mesma.
As mulheres também cumpririam a sua sina de tocarem, sozinhas, os
sítios e fazendas e criarem seus filhos até 13, 14 anos, quando então
acompanhavam os pais sertão adentro.
Mogi das Cruzes guardava ainda bom movimento com a passagem das
caravanas para o sertão.
Com a aura de importância que o ouro trazia para a região atraía
visitantes ilustres. De um deles, particularmente, lembravam-se seus
habitantes: a visita do governador e capitão geral de São Paulo, o conde de
Assumar, em 1717, a caminho de minas.
Com toda a pompa e circunstâncias que o cargo requeria, entrou ele na
vila, aos ombros de 20 índios, cinco em cada vara de sua cadeirinha. Sob o
pálio de tafetá, foi o conde homenageado na Igreja Matriz e festejado por todos
os moradores.
Também, em 1717, ocorreu um fato importante para o Brasil. Estando
uns pescadores pescando, pouco adiante dali, mas já no rio Paraíba,
apareceu-lhes em uma rede, uma imagem de madeira de Nossa Senhora,
escurecida pela longa permanência na água. Foi chamada Aparecida, e seria a
Padroeira do Brasil.
A cidade atraía também portugueses d’Além mar.
Mais ou menos por volta de 1718, com 20 anos de idade, estava saindo
de São Salvador de Modives, conselho da Maia, no Bispado do Porto, para
Mogi Mirim, Roque de Souza Brito que daria o seu nome ao fundador de nossa
terra. Modives era uma pequena aldeia, de uma região muito pobre, onde se
cultivavam uvas para vinho e alguma cultura de subsistência. Pisar as uvas nos
lagares, fazer o vinho era a única perspectiva para os moços da região. As
histórias de incríveis aventuras e fortunas, feitas com o ouro no mundo novo,
incendiavam a imaginação dos jovens. Com o coração pesado por saber
que não mais os veria, abraçou seus pais, mas uma parte de seu coração já
batia apressada, pela perspectiva da vida aventurosa que o aguardava e que,
teria, na longínqua Mogi das Cruzes...
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Na época da nossa História, 1670, só existiam duas cidades: São Paulo e Mogi das
Cruzes, única entrada para os sertões. Era só atravessar o Rio Paraíba e entrava-se
em terra que seriam as Minas Gerais
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CAPÍTULO V
NASCE ROMUALDO DE SOUZA BRITO
Quando Roque de Souza Brito (que deu nome ao nosso fundador)
chegou a Mogi das Cruzes, vindo de Portugal, a região passava por grandes
mudanças. Foi descoberta uma passagem pelas montanhas, na região de
Cruzeiro bem antes de Mogi para quem vinha do Rio, encurtando bem o
caminho que antes passava por Mogi, para as minas de ouro. O trânsito
passou a ser feito por ali, para grande prejuízo das cidades do vale, do lado de
São Paulo, que entraram em decadência, Mogi das Cruzes inclusive.
Não só São Paulo. Cada vez mais engenhos de açúcar do norte e
nordeste fechando para a busca desenfreada do ouro “fácil”.
Não só o Brasil. Acorreram para cá cada vez mais portugueses e
também franceses e alemães.
Como os índios tornavam-se escassos, começou então a importação de
escravos africanos para São Paulo, o que até agora só era possível para os
ricos donos de engenhos.
Foi nessa época, mais precisamente em 1722, que, em São Paulo,
passaram-se fatos que iriam influenciar a vida de nosso recém chegado Roque,
que seria fundamental para a nossa região.
Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera II, assim chamado por ser
filho do famoso Anhanguera, preparava o que seria uma das últimas bandeiras.
Lembrava-se ele que vira nos seus tempos de criança acompanhando
seu pai pelos sertões, índios com enfeites de ouro, lá pelos lados de Goiás.
Tomando um caminho diferente do então usual por Mogi das Cruzes, foi ele em
direção da pequena vila de São Carlos (futura Campinas) e seguiu adiante e,
talvez, tenha trilhado algum caminho antigo indígena, como existiam muitos,
pois achou gente arranchada em Mogi Guaçu que para cá vieram poucos anos
antes. Para frente, só mata indevassada.
Passou pelo seria Mogi Mirim, Mogi Guaçu, Espírito Santo do Pinhal
(antes de chegar a cidade propriamente dita), Casa Branca, Mococa, Franca
atravessou Minas e chegou as terras dos índios goiazes, que dariam o nome à
região. Depois de três anos vagando pelos sertões, e perdendo quase todos os
seus homens que morreram de fome, descobriu ouro e, em 1725, fundou a
cidade de Goiás. Voltou coberto de glória, pois descobrira aquele que seria,
depois de Minas e Cuiabá, o terceiro grande filão aurífero da colônia. Para não
fugir à tradição, abriu caminhos, fundou cidades, gerou grandes riquezas, mas
morreu pobre, exaurido pela sua grande empreitada.
Por essa época consolidava outro caminho para as Minas Gerais. Era o
Caminho Novo, indo diretamente do Rio para a zona aurífera.
A cidade do Rio de Janeiro passou a centralizar a rota do povoamento e
abastecimento, suplantando as vias paulistas. Isto significou que a supremacia
paulista estava definitivamente vencida.
Em compensação, o caminho do Anhanguera ou de Goiás começou a ser
intensamente trilhado, surgindo pousos pelo percurso que se transformariam
mais tarde, em grandes cidades.
Voltando ao nosso amigo Roque de Souza Brito, ele se deu bem na
vida. Comprou terras, que produziam víveres que ele negociava, juntamente
com muares vindos do Sul do País, tanto no caminho das Minas Gerais, como
no do Anhanguera. Pelas suas realizações, recebeu o título de Capitão. Mas o
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
15
que interessa para nossa história é que ele se apaixonou por uma menina de
seus 16 anos. Ela era, exatamente, bisneta de Rufina de Moraes, que chegara
anos antes a Mogi, descendente de Antônio Rodrigues e da filha de cacique
Piquerobí.
O neto deles, Alexandre de Souza Brito veio a unir-se com Gertrudes
Maria da Anunciação, descendente de João Ramalho e Bartira. Uniam-se as
duas linhagens principais dos primórdios de São Paulo.
O filho deles seria nada menos que Romualdo de Souza Brito.
Finalmente nascia aquele que seria o fundador da nossa cidade.
Mogi das Cruzes entrara definitivamente em decadência com a criação
do Caminho Novo para o Rio de Janeiro.
Junta a essa decadência o fato crucial de que depois de pouco mais de
cem anos exaustiva exploração estava-se exaurindo o que se julgava eterno: -o
ouro-.
Sem perspectivas econômicas, o pai de Romualdo lembrou-se das
andanças de seu avô, pelo caminho do Anhanguera, mudou-se com a família
em 1812 para onde indicava o caminho do progresso. Comprou terras em
Bragança. Romualdo tinha então 20 anos, e estava perto de seu destino
principal...
Os Caminhos do Ouro
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
16
CAPÍTULO VI
O PRIMEIRO POSSEIRO DE PINHAL
ANTÔNIO CARLOS DE AZEVEDO
A DEMANDA
Para entendermos o que se passava em todo o Estado de São Paulo na
época, há de se lembrar que o ciclo do ouro se findara. A conseqüência foi a
debandada geral do pessoal que, direta ou indiretamente, vivia em função das
minas de ouro.
A alternativa que se apresentava era a agricultura e a pecuária, São
Paulo apresentava melhores condições que Minas Gerais para isso. Tinha
terras novas e pouco povoadas, menos impostos e clima mais ameno.
Começou a “Marcha para Oeste” dos mineiros para o Leste de São
Paulo. Ao norte de São Paulo os mineiros desciam de Minas e do Sul, os
paulistas subiam, para conquistar os indevassados campos e matas.
A nossa região foi apossada por paulistas e, particularmente, em Pinhal,
paulistas de Bragança, os “braguanceiros”. Antes deles, por aqui vagueavam
índios da forte e numerosa nação caiapó.
Havia aldeias de caiapós nas corredeiras do Rio Mogi-Guaçu, em Mogi
Guaçu e na fazenda Rochela, na divisa de Pinhal com Andradas. Em Pinhal
não há evidência de aldeamentos, embora índios fossem vistos pelos primeiros
moradores, vagando pela floresta, coletando pinhões pelo chão.
A região de Pinhal, cercada por estradas de caminho para as minas de
ouro, permaneceu como que ilhada.
Ao sul, seguindo o curso do Rio Mogi-Guaçu, (Rio Manso em Pinhal)
havia uma estrada que estava sendo bem trilhada desde 1748, quando foi
descoberto ouro em Ouro Fino e, por ir mato adentro, chamou-se “Mato Dentro
do caminho de Ouro Fino”. A oeste corria a estrada de Goiás aberta em 1722,
muito trilhada, com a descoberta de ouro naquelas terras.
Ao redor desses caminhos, estavam os posseiros formando fazendas,
principalmente para abastecerem os pousos dos caminhos para as minas de
ouro.
Pinhal começou a ser aposseada a Oeste, no “Cercado Grande do
Caminho de Ouro Fino”, às margens dos Rios Orissanga, Orissanguinha e
Jangada que se transformariam nas fazendas Volta Grande, Campo Redondo,
Taquarantã, São Pedro, Jangada, Santa Águeda etc...
Também já havia posses pelo caminho “Mato Dentro do Caminho de
Ouro Fino”, às margens do Rio Mogi-Guaçu e Eleutério, que viriam a ser as
fazendas São José, Aliança, Veridiana, Santa Júlia, Santa Tereza etc...
A parte central, onde hoje é a cidade de Pinhal, continuava indevassada,
por ficar fora das vias de acesso.
Ao contrário do que se pensa, Romualdo não foi o primeiro morador de
Pinhal. Ele foi o fundador da cidade de Espírito Santo do Pinhal.
Em1808 chega a nossas terras entrando nas matas indevassadas, vindo de
Bragança, Antônio Carlos de Azevedo, que demarca para si 592,30 alqueires.
Era região de densa mata virgem de terra muito fértil, cercada e entrecortada
por inúmeros córregos que desciam da serra que se elevava para os lados do
nascente.
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
17
Sua fazenda tinha uma forma alongada, num belo vale entre montanhas,
começando aproximadamente onde hoje está a antiga Estação Ferroviária. Até
esse pedaço as terras já estavam aposseadas pela Fazenda Palmeiras (já
tinha esse nome) que se alongava para os lados onde seria São João da Boa
Vista. À direita subia margeando o córrego Carioca e à esquerda, o Ribeirão
dos Porcos. Passava em frente onde é hoje a Escola Cardeal Leme,
terminando na saída para Albertina. Descia pelo córrego atrás do Hospital e
abrangia todo o Bairro do Sertãozinho, o morro do Alto Alegre (cemitério) e
morro do Colégio Divino Espírito Santo.
Pela grande quantidade de pinheiros (araucária, angustifólia) ficou a
fazenda conhecida por “Pinhal” ou “Ribeirão dos Porcos” ou por Pinhal nas
cabeceiras do Ribeirão dos Porcos. Antônio Carlos de Azevedo se estabeleceu
às margens do rio que passa atrás da Rua Barão de Mota Paes, o Ribeirão dos
Porcos, em algum lugar, mais para o fim da Rua Barão, mais ou menos onde
desce a Rua XV de Novembro (estacionamento “Beira Rio”).Mais adiante
diremos porque chegamos a essa conclusão inédita até agora.
Ele era um homem branco de condição econômica, muito simples, pois
não tinha nenhum escravo. Esta foi, sem dúvida, a razão que o levou a se
aventurar por um lugar indevassado, onde não precisava comprar terras.Veio
com sua mulher Genoveva Maria de Moraes, filhos pequenos e dois agregados
de idade, provavelmente parentes.
Assim, sozinho, pouco pôde fazer contra a exuberante floresta. Sua casa
era simples, coberta de palha. Criava porcos junto ao ribeirão, que tomou o
nome dos animais que chafurdavam em suas margens. Plantava para o
“passar”, milho, feijão, trigo. Aliás, o trigo foi o primeiro produto a ser vendido
em terras pinhalenses. Agüentou essa vida isolada por alguns anos e, aí,
vendeu suas terras para um antigo vizinho seu, de Bragança, “Felipe Santiago
da Cruz”em 01/10/1821.
Antônio Carlos levou esse seu conterrâneo para conhecer suas terras.
Felipe tinha idade.
Pensamos que ele deva ter se apaixonado pela exuberância dessas
terras e pela beleza de suas montanhas cobertas de florestas entrecortadas
por inúmeros veios de água e pela fartura da caça que vagava pelas matas.
Pensamos isso, por ele ter tomado uma decisão inusitada, e que deu
origem a fundação de nossa cidade.
Vamos prestar atenção.
Felipe Santiago da Cruz tinha 76 anos e possuía uma fazenda formada,
no bairro do Moquém em Bragança. Pois ele resolveu comprar a fazenda do
Pinhal, vendendo a sua para o seu filho “Floriano Pires Cardoso”.
Esse filho pagou a fazenda do Pinhal em Mogi Mirim com seu dinheiro,
mas a colocou em nome de seu pai.
A transação burocrática demorou a ser feita, vindo Felipe Santiago da
Cruz a falecer antes de ter sacramentado a mudança das propriedades, e sem
ter feito testamento.
Pela lei, ele era possuidor das duas fazendas que foram divididas pelos
herdeiros, no caso sete filhos.
Esses filhos se apossaram das 2 fazendas, e vieram se estabelecer em
Pinhal.
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
18

Floriano Pires Cardoso, julgando-se prejudicado, entrou na justiça contra
seus irmãos, dando início a – DEMANDA – briga judicial que deu origem à
nossa cidade, como veremos no próximo capítulo.
Pouso dos Tropeiros Paulistas
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
19
CAPÍTULO VII
ROMUALDO DE SOUZA BRITO
A FUNDAÇÃO DE ESPÍRITO SANTO DO PIN
HAL
Como vimos nos capítulos anteriores, Romualdo de Souza Brito nascera
em 1792, na cidade de Mogi das Cruzes, então centro importante para a
entrada das minas de ouro. Era descendente das duas primeiras famílias de
São Paulo, índios e portugueses nos primórdios. Seu nome veio de seu bisavô,
Roque de Souza Brito, português do Porto.
Após o fim da produção aurífera, com a queda do movimento em Mogi
das Cruzes, a família veio para Bragança, em direção do caminho de Goiás
(antigo caminho do Anhanguera), para onde o novo movimento econômico
caminhava. Vindas das minas de ouro, as pessoas acorriam em busca das
novas alternativas econômicas que eram a lavoura e a pecuária.
Vamos, então, encontrar nosso fundador com 20 anos em Bragança,
com os pais. Não demorou muito e mudou-se (sozinho) para Mogi Mirim,
certamente em busca de trabalho. Logo se casou nessa cidade com Maria
Francisca de Oliveira. Maria Francisca é pouco conhecida, pois foi depois de
casado em segundas núpcias, que ele fundou Pinhal, imortalizando o nome de
sua segunda esposa, Tereza Maria de Jesus. A sua maior descendência vem
de Maria Francisca, com quem teve 14 filhos, os quais, por já serem adultos na
época da fundação da cidade, muito contribuíram para a formação da mesma.
Romualdo foi uma pessoa interessante. Certamente, foi muito
equilibrado, pois sua situação econômica caminhou do nada, quando se casou,
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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e foi, gradativamente, melhorando, sem nunca retroceder. Só dava um passo
quando tinha certeza de que teria condições de êxito. Assim passou dos
primeiros 100 alqueires para chegar a ter 950,5 alqueires.
No dizer de nosso grande historiador e pesquisador Roberto
Vasconcelos Martins: “Romualdo de Souza Brito é homem para nossos dias!
Foi um conciliador que com rara visão, conseguiu a pacificação e a harmonia
entre os primeiros povos dessa terra, sem fazer uso da violência, sem
derramamento de sangue. Romualdo é atualíssimo, com energia, mas com
moderação de seu espírito de fé e religiosidade, conduz os homens a construir
e unir-se nos momentos em que parece que tudo está perdido e avizinha-se o
caos”.
Mas voltemos a Romualdo, antes da doação, em Mogi Mirim. Ele foi
trabalhar como feitor em um engenho de açúcar, o Santa Bárbara, e dobrou
sua produção no primeiro ano. Isso não impedia que ele tivesse lavouras e
criassem porcos! Vendeu nesse ano 60 capados, e já tinha dois escravos, o
que demonstrava que estava melhorando de situação financeira.
Logo Romualdo teve possibilidade de trabalhar por conta própria.
Provavelmente, através dos “braganceiros” já donos de muitas terras na região
de Pinhal, comprou em 22 de setembro de 1828, 100 alqueires da Fazenda
Boa Esperança, de Joaquim da Rocha Campos, um dos mais antigos
condôminos da região, para os lados do Albertão.
A Fazenda de Pinhal começava onde fica a antiga Estação de trem,
passando na frente do Ginásio Cardeal Leme, indo até a saída para Albertina,
descendo até o rio atrás do Hospital, pegava todo o Bairro do Sertãozinho o
alto Alegre (cemitério) e, descendo, abrangia o morro do Colégio Divino
Espírito Santo.
A fazenda de Romualdo divisava com a do Pinhal, na região da saída
para Albertina, onde começava a sua, que ia em direção ao Albertão. É preciso
ler o capítulo anterior para entender o que se passava na Fazenda do Pinhal, e
porque havia começado a – DEMANDA – por essas terras, entre 7 irmãos. Em
rápidas palavras: um dos irmãos, Floriano Pires Cardoso, comprara essas
terras com seu dinheiro, mas em nome de seu pai, por um trato feito com ele.
O pai, Felipe Santiago da Cruz morreu antes de concretizar o trato; e os outros
irmãos se apossaram das terras. Floriano iniciou a – DEMANDA – pela posse
das terras do Pinhal, a que julgava ter direito.
Ao tempo em que Romualdo veio para cá, a Demanda já ia a bom termo
e os irmãos invasores, vendo que perderiam as terras, muito sabidamente as
venderam para o mineiro José Justino de Toledo, vindo de Santana do Sapucaí
(hoje Silvianópolis).
Romualdo estava já há 21 anos em Pinhal administrando tranqüilamente
suas propriedades sempre crescentes, e sua família mais crescente ainda.
Além dos 14 filhos da primeira mulher teve mais doze com a outra, Tereza
Maria de Jesus, oito vivos, segundo declarou em seu testamento. Ao todo, 26
filhos. Foi quando o mineiro José Justino de Toledo, pressionado por dívidas, e
talvez pela ação judicial de suas terras, resolveu vendê-las a Romualdo.
Romualdo, por serem as terras contíguas às suas, efetuou a compra de
66,5 alqueires incluindo todo o centro de Pinhal, menos a terras de
Sertãozinho, por já pertencerem ao autor da Demanda Judicial.


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
21
Da sede de sua fazenda Boa Esperança onde morava (antigo
Martorano), até as novas terras era bem próximo. Começou ele então a
derrubada dos altos pinheiros que cobriam o lugar, (onde um dia seria o largo
da Matriz), para fazer uma plantação de milho.
Ouvindo o barulho da derrubada, os vizinhos conflitantes acorreram
enfurecidos; vieram armados de foices e facões, e deram tiros de trabuco para
intimidar a turma de Romualdo.
Era uma situação delicada. A briga não era sua. Ele havia pagado pelas
terras, o dono anterior tinha pago pelas mesmas terras. O primeiro dono
(aquele que pagou e não levou) havia pagado também.
Difícil solução.
Dizem, então que Romualdo teve uma divina inspiração. Espírito
altamente religioso que era decidiu que a melhor solução seria não ficar a terra
para ninguém.
Naquele exato lugar de brigas e demandas seria construído um Templo
abençoado pelo “Divino Espírito Santo”
No dia 27 de dezembro de 1849, passou a escritura de doação em São
João da Boa Vista, juntamente com sua segunda mulher, Tereza Maria de
Jesus. Seriam 40 alqueires para o patrimônio da capela.
Ficou o local chamado de “Espírito Santo do Pinhal” – “Pinhal por ser o
lugar coberto por frondosos pinheiros naturais da região.”
“Espírito Santo”, para que Ele abençoando aquela terra, a protegesse
contra brigas e discórdias...


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
22
CAPÍTULO VIII
NOSSA PRIMEIRA MISSA
Desde que foram doadas as terras o para o Divino Espírito Santo, o
crescimento da cidade foi muito rápido. Até bem pouco antes, só existiam por
ali fazendas esparsas ao redor de Pinhal. O primeiro trilho dando acesso a
nossa terra chamava-se “Caminho dos Vilas Verdes” , e entrava onde é hoje a
“Raia”. Foi usada até quando foi construída a estrada de rodagem.
Dentro da cidade, o primeiro trilho foi aberto pela Rua Barão de Mota
Paes, indo dar na casinha de Antônio Carlos de Azevedo, o primeiro morador,
lá pela desembocadura de três ribeirões, aproximadamente no fim da Rua XV
de Novembro, conhecido por “Estrada dos Braganceiros”.
Um segundo trilho foi aberto por entre a mata, subindo a XV de
Novembro, passando por onde seria o Largo da Matriz e caminhando em
direção da saída para a futura Albertina, indo para Ouro Fino. Os primeiros
relatos são muito claros em dizer que o largo da Matriz era coberto de matas,
portanto o povoamento começou por ali. Além disso, não havia água. O
chafariz foi feito bem depois, puxando a água do córrego do Carioca, atrás do
Cardeal Leme. Os moradores do largo, depois da doação, pegavam água no
Córrego da Quaresma, que passava para baixo do Hotel Dona Emília, abaixo
da Rua Floriano Peixoto e na biquinha do Mercado (hoje ambos canalizados).
Quando Romualdo de Souza Brito doou as terras para o patrimônio, as
pessoas que tinham fazendas ao redor, foram rapidamente demarcando suas
casas em volta do Largo da Matriz, que estava sendo aberto.
Houve séria oposição do mandante da “DEMANDA”, o irmão que pagou
as terras, mas não levou (ver capítulo anterior) Floriano Pires Cardoso, que
ocupara a Fazenda do Sertãozinho com 220 alqueires, mas julgava no direito à
Fazenda toda.
Aconteceram então alguns episódios assombraram a “gente dos Pires”
como eram chamados.
Estava uma menina a moer milho em um monjolo, quando o espeque
que segurava a mão do pilão se soltou matando a menina. Provavelmente este
fato ocorreu no ribeirão atrás do atual Hospital, ribeirão que, nos mapas
antigos, tinha o nome de Ribeirão do Monjolo de João Pedro de Moraes, sendo
essa pessoa o marido de uma irmã dos Pires da “Demanda”.
Logo em seguida, um deles, estando em um andaime de construção,
caiu, vindo a falecer.
Essas ocorrências foram tomadas como advertências do “Espírito
Santo”.
Apaziguaram-se, então, os ânimos e resolveram os Pires acatar a
doação das terras, unindo-se aos outros, para a construção da Capela, como
preconizava Romualdo.
Em 13/02/1850 atendendo às solicitações dos moradores, o então bispo
de São Paulo,concedeu a provisão dando licença para a construção da Capela.
Levaram dois anos para a derrubada da densa floresta e a construção
da Capelinha. Fizeram este trabalho os fazendeiros das redondezas, unido-se
em mutirão e fazendo doações para o patrimônio.
O fazendeiro José Germano Fernandez que viera a pouco de João do
Príncipe, no Estado do Rio de Janeiro, comprara mais ou menos 660 alqueires
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
23
da Fazenda Jangada, pondo o nome de Fazenda Santa Águeda, em
homenagem à sua esposa Águeda Maria de Jesus. Germaninho, como era
chamado, foi de grande ajuda no começo da povoação, iniciando uma
subscrição destinada a construção da capela e que teve a melhor acolhida por
parte da população.
Por essa época, no pátio da capela, começava a se erguer algumas
casas. Na esquina em frente onde é hoje a Paulicéia, (no Sellitto) Romualdo
fez sua casa, deixando-a, ainda por acabar. Mais para baixo havia um ferreiro,
uma venda, e, em construção a casa de Luiz de Souza Brito, filho de
Romualdo; somente essas.
Bem abaixo, ao pé do Ribeirão (fim da Rua XV de Novembro), ficava a
casa do mineiro José Justino de Toledo. Esse José Justino comprara as terras
dos Irmãos Pires (da demanda) e o trecho da casa que ele ainda conservava
depois de vender o restante para Romualdo, que pertencera a um dos irmãos
Vicente Pires Cardoso. Esse irmão viera primeiro, por mando de seu pai, tomar
posse das terras, enquanto o pai não vinha, e foi para o lugar em que o
primeiro morador se fixara.
A venda dessa terra para o mineiro José Justino ficou marcada nos
antigos mapas e é a prova do lugar onde Pinhal começou; fato inédito até
agora.
O Tabelião Francisco Pereira Machado, que viera morar em Pinhal, em
agosto de 1851, isto é, meses antes da primeira missa, deixou-nos uma
preciosa carta com muitos detalhes dos primeiros dias de nossa terra. Em um
trecho ele diz: “A ereção da capela é devida a Romualdo de Souza Brito, não
só porque deu as terras, como porque muito concorreu com dinheiro e o que
mais era possível, ajudado por José Romualdo (seu filho José Antônio de
Souza Brito) que se prestou de corpo e alma, sempre em ajudar as obras da
Capela, tendo por parte também nesse serviço Joaquim Correia Gomes, que
se prestava igualmente”. Os três eram os protetores da Capela.
Esse mesmo José de Souza Brito, muito operante, instalou um engenho
de serra no lugar onde o rio era mais forte, mais ou menos na altura da Praça
13 de Maio para baixo. O engenho constava de uma roda d‘água que tocava
uma engrenagem ligada a uma serra, que serrava as enormes árvores para
fazer tábuas e madeiramentos para as inúmeras casas em construção.
A rua que dava acesso ao engenho (a futura Rua Barão), que até então
se chamava “Estrada dos Braganceiros”, passou a ser conhecida como
“Estrada do Engenho de Serra”.
Vendo-se hoje esses rios hoje, podemos achar que eles são pouco
caudalosos, mas, segundo um especialista consultado, com a quantidade de
floresta existente, suas grandes árvores abriam com suas raízes canais por
onde as águas das chuvas desciam para os lençóis subterrâneos. A
quantidade de água deveria ser no mínimo três vezes maior que atualmente.
Enquanto isso, no Pátio da Capela, as obras iam aceleradas. Não dando
conta da limpeza de tantas árvores, os mandantes congregaram o povo todo
para o serviço. O que não podia ser carregado era arrastado por juntas de bois.
As pessoas desse tempo faziam todos os serviços e participavam da
construção e limpeza. Num trecho da carta o Tabelião diz:”Eu e José
Romualdo com o irmão Luiz (ambos filhos de Romualdo) nos importamos com


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
24
o cerco da Capela; cercamos dela o preciso para o nicho, fizemos um
assoalhado e ali se edificou um altar provisório”.
E o Padre? Aonde buscar um Padre naquele fim de mundo?
Coincidência. Romualdo indagando, ouviu dizer que estava em visita a um
parente um tal de “Cerulote”, do Abertão, um Padre chamado Manoel José de
Faria, vulgo ”Chapéu de Junco”. Esse tal de “cerulote” tinha esse apelido por
ser tão sovina, que só andava de ceroulas para economizar as calças. Mesmo
quando ia à cidade, amarrava as calças na sela, e só as vestia quando ia
chegando. Ele era da antiga família Campos, que vendera as terras a
Romualdo (essa família vive até hoje em Abertão).
Romualdo trouxe o Padre dias antes da primeira missa, enquanto se
faziam os últimos preparativos para a grande ocasião. Um cedro foi cortado e
se fez uma cruz que foi colocada em frente à Igrejinha.
O dia 25 de dezembro de 1851 raiou radioso como o coração das
pessoas do pequeno arraial! Foi rezada a primeira missa de nossa terra, num
auspicioso dia de Natal!
Rezaram-se missas todos os dias até 1º de janeiro, quando o Padre foi
embora.
E assim, aonde reinava a discórdia, passou a imperar a paz e a união
sob a guarda do Espírito Santo e de Nossa Senhora das Dores, também
escolhida como protetora da capela...


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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CAPÍTULO IX
OS PRIMEIROS TEMPOS DA CAPELA

Vimos nos capítulos anteriores à fundação de Pinhal, e sua primeira
missa. Começavam, então, as preocupações com as necessidades básicas do
pequeno povoado. A primeira a ser tratada seria onde enterrar seus mortos. Foi
então pedida provisão para construção e fundação do cemitério da Capela do
Espírito Santo e N. Senhora das Dores do Pinhal.
Em 03/08/1853, o Bispo de São Paulo concedeu provisão, e o primeiro
cemitério de Pinhal, foi aberto bem para traz da igrejinha, onde hoje se
encontra o Prédio da Prefeitura.
O ato da conciliação entre as partes beligerantes sobre a demanda pela
Fazenda de Pinhal foi sacramentado por escritura pública em 10/11/1853. A
fazenda foi legalmente dividida entre os condôminos.
Na escritura de conciliação, temos outra prova de onde começou Pinhal.
Reza a escritura:”...principiando a divisão na barra de um correguinho que fica
adiante da casa de José Pedro Moraes, que faz foz (deságua) com o Ribeirão
dos Porcos...”
Esse José Pedro de Moraes (ou João como aparece em alguns lugares)
tinha um monjolo, o primeiro do lugar, nesse ribeirão que tomou seu nome:
Ribeirão do Monjolo de José (ou João) Pedro de Moraes, e que corre na
baixada atrás do hospital nas divisas do Dr. Teté, hoje Rua Professor José
Boreli.O lugar onde esse córrego deságua no Ribeirão dos Porcos é nos
fundos do Sanatório, na baixada onde corre o riozinho.
Ali era a casa do João (ou José) Pedro de Moraes, casado com
Felizarda Maria de Jesus, irmã dos Pires da “Demanda” e uma das primeiras a
fazer casa na Fazenda do Pinhal, logo que seu pai Felipe Santiago da Cruz, o
comprador das terras, faleceu.
Está provado que nessa baixada dos ribeirões surgiu Pinhal.
Outra providência a ser tomada era tornar curada a Capela, isto é, ter
um padre residente, responsável pela capela, quer dizer, um curador.
Em julho de 1855, o povo de Pinhal requereu a elevação da capela a
Curato.Sofreu então forte oposição de São João e Mogi Mirim por se sentirem
desprestigiadas. Mas assim mesmo, dois anos depois, em 19/08/1857, foi dada
a provisão, e para cá veio o padre José Mariano da Silva Macaré.
Nascera em São Paulo, foi muito querido pelo povo, morreu paupérrimo
e foi sepultado sob a nave da capela. Dizia-se dele: “Ele amava esta terra
como se aqui fosse seu berço, do mesmo modo que foi seu túmulo”.
Havia necessidade também de impor ordem ao povoado. Foram
nomeadas as primeiras autoridades: José Antônio de Souza Brito (filho de
Romualdo) como sub-delegado, João Francisco Ferreira – juiz de paz, e José
Justino de Toledo inspetor de quarteirão. Explica-se: todos eram moradores da
cidade que davam sua contribuição para o bom andamento do pequeno
povoado. Romualdo era o protetor da capela e o orientador dos primeiros
tempos.
Não havendo cadeia para confinar os desrespeitadores da lei, foi
construído um quarto feito de tabuas, um pouco para baixo do largo da Capela,
onde hoje é o Palace Hotel. Por ser a construção muito frágil precisava o preso
ser acorrentado em um tronco de ferro, senão, com um simples pontapé, poria
o preso a parede abaixo. A cadeia chamava-se “Casa de Tábua”.


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
26
A vida no povoado era muito pacata. Ninguém morava na cidade a não
ser artesãos e alguma rameira. As famílias residiam em suas fazendas, onde
todos tinham o seu ganha-pão.
O movimento era nas fazendas. Somente vinham à Vila em dias de
missa, ou festas de Santos e, para isso iam construindo casas ao redor da
Capela.
Tudo se fazia em casa. Plantava-se algodão e criavam-se ovelhas para
fiar e tecer os panos para roupas e mantas. Costuravam, bordavam, faziam
pão, roscas, biscoitos, doces. O milho era plantado e virava alimento dos
animais e das gentes. O angu, herdado dos índios, era o forte da alimentação e
dava “sustância’”.
Os porcos davam carne e banha. Derretiam a banha nos tachos e,
depois guardavam, em grandes latas, limbos, costelinhas e pernis que comiam
no decorrer dos dias. Plantava-se também o trigo, feijão, mandioca.
A iluminação era feita com óleo de mamona, postas nos candeeiros, e
de velas feitas de cera de abelhas, nos castiçais.
O trabalho era pesado, mas cansava o corpo e não a mente. Sábado era
dia de muita azáfama na cozinha. Era o dia de fazer quitanda. Quitanda era
tudo o que se comia durante a semana, fora o almoço e jantar. Faziam-se
pães, biscoitos, broas, bolachinhas, sequilhos.
O grande forno a lenha era aceso logo cedo e, enquanto esquentava, iase
amassando o pão e as roscas. O fermento era feito deixando-se um pouco
de massa da semana anterior na gamela. Na semana seguinte o restinho da
massa levedava e o fermento estava pronto para ser usado. Essa gamela
nunca era lavada, mas coberta e guardada em lugar fresco. Com o forno
quente assavam-se pães e roscas; com o forno médio assavam-se biscoitos e
broas e, quando o forno estava mais morno, era a vez de assar os suspiros.
Depois de tanto suador na cozinha, era hora do banho, pois, claro, era
sábado, dia de tomar banho. Eram chaleiras e mais chaleiras levadas da
cozinha para o quarto e despejados em uma grande bacia. Não havia banheiro
e a higiene era feita no quarto mesmo. Havia no quarto um móvel com pedra
de mármore, o lavatório, onde as mucamas depositavam a jarra com água e
uma bacia para lavar o rosto. Um paninho úmido passado debaixo do braço e
limão nas axilas para amenizar o suor, mascar serragem ou fumo para limpar
os dentes, era a higiene precária. Para disfarçar o mau hálito mastigavam
dentinhos de cravo, mas isso só em dias de festa. O que se lavava todo dia
mesmo, era o pés e as mãos logo que se chegava do trabalho. Depois de tudo
isso, como ninguém era de ferro, havia baile na tulha todo sábado. Todos
tocavam os vários instrumentos, que iam trocando de mãos, enquanto a polca
fazia os pares rodopiarem a noite toda. Todos dançavam com todos com o
maior respeito.
A vida era alegre, pois os trabalhos eram feitos em mutirão, todos juntos,
e sociabilidade era muito grande. As crianças brincavam juntas, os velhos
tinham um lugar importante nas antigas sociedades e eram muito respeitados.
Essas estórias foram contadas para a autora desses relatos, por sua avó
paterna, antiga fazendeira mineira, que ensinou também a fazer queijo e
requeijões, broas e o famoso biscoito de polvilho.


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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CAPÍTULO X
AS PRIMEIRAS FAMÍLIAS N.1
O Primeiro Café
Mesmo antes da fundação de Pinhal, depois que o primeiro posseiro
entrou em terras pinhalenses, começaram a crescer as fazendas ao redor.
1820 (Aproximadamente)
Um dos maiores proprietários de terra dos primeiros tempos foi Vicente
Rocha Campos e seu filho Joaquim da Rocha Campos. Eles tinham fazendas
no Eleutério, na Jangada, no Mato Dentro do Caminho de Ouro Fino e no
Abertão. Foi Vicente quem vendeu a primeira fazenda para Romualdo em
1828. Sua fazenda no Abertão, o “Ribeirão da Cachoeira”, naquela época
possuía engenho de cana, então coisa rara na região e fazia rapadura (nosso
açúcar de então) e aguardente. Tinha criação de porcos, além de plantações
de milho, trigo, arroz, feijão e, vejam só, -CAFÉ-.
É a primeira vez que vemos citadas as plantações de arroz e café. Com
seu espírito empreendedor, foram eles (pesquisa feita até agora), ao que tudo
indica, que introduziram plantações em Pinhal.
-Salve Joaquim da Rocha Campos! – Eles eram paulistas de Mogi
Guaçu.
Vimos então que o café veio para Pinhal, no mínimo, em 1827, antes
mesmo de sua fundação. Mas eram pequenas plantações. Era
economicamente inviável levar o produto em lombo de mula, atravessando as
serras da Mantiqueira e do Mar, até o litoral para exportação. Isso só seria
possível, com o advento da estrada de ferro, 62 anos depois.
O segundo plantador de café foi Romualdo de Souza Brito, em 1828, em
sua fazenda Boa Esperança.
A maioria dos fazendeiros desse tempo era gente simples, não tinham
escravos, suas casas eram cobertas de sapé e plantavam o “passar”. Os
maiores produtores mandavam seus produtos para São Paulo ou Rio de
Janeiro, via Ouro Fino, por tropeiros, na maioria das vezes, seus próprios
filhos. Levavam rapadura, fumo, aguardente, mantas de toicinho salgadas e
defumadas, e porcos vivos para carne. As manadas de porcos iam sendo
tocadas pelos tropeiros, que demoravam até 7 meses (ida e volta) nessas
viagens. Traziam sal (coisa rara na época), especiarias, querosene, sardinha e
bacalhau (para os inúmeros portugueses de então), ferramentas etc.
1836
Uma das primeiras famílias que aqui chegaram vindas de Minas foi a
dos três irmãos Ribeiro. Eram filhos do Sargento-mor Luis Antônio Ribeiro, que
vindo de Portugal para o caminho do ouro, estabeleceu-se em Barra-Longa,
hoje, casando com a brasileira Ana Jacinta do Nascimento.
Já no ano de 1836 os três irmãos compraram a Fazenda São João dos
Pinheiros,dividiram-na entre si e o local ficou conhecido como “Três Fazendas”.
Eram eles: Comendador Augusto José Ribeiro, casado com Lina Augusta
dos Prazeres,Tenente Manoel Luiz Ribeiro, casado com Inácia Ângela Xavier e
Capitão João José Ribeiro, casado com Tereza Marcelina Xavier (eles
casaram na fazenda São Gonçalo, em Barra Longa em 08-10-1829).


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
29
Havia no local do engenho de moer cana. No ano de 1854 o Capitão
João José Ribeiro ficou com a parte dos irmãos, trocando com eles por outras
fazendas que já lhe pertenciam, na região de Eleutério. Comprando outras
propriedades das redondezas tornou-se um dos maiores proprietários da
região, com 1.500 alqueires.
Eles não tomaram parte nos primeiros acontecimentos de Pinhal, pois
duas terras ora pertenciam a São João ora a Pinhal, sendo mais participantes
da vida de São João da Boa Vista. Somente em 1881, passaram suas terras
definitivamente para a jurisdição de Pinhal e eles e seus filhos começaram a ter
participação ativa na vida econômica, social e política de nossa terra, como
veremos mais adiante. Os irmãos Ribeiro se destacavam também pela alta
estatura. Consta que um deles tinha 2 m de altura. João José Ribeiro foi
enterrado em sua fazenda, em cemitério particular.
1855
Um antigo proprietário de terras, que deixou seu nome na história de
Pinhal foi Antônio Pereira Vilas Verdes, nascido em Airuoca, nos caminhos do
ouro. Era filho do português Domingos Cazal Vilas Verdes que, como tanto
outros, viera tentar a sorte em Minas e logo se casara com uma brasileira.
Essas mulheres eram, na maioria das vezes, descendentes de paulistas e
foram misturando seu sangue meio indígena com o europeu.
Comprou terras em data anterior a 1856, quando então já possuía 382
alqueires, na região onde passava a estrada de Mogi Guaçu para Pinhal por
traz da estação Mota Paes, pegando a Vila Monte Negro, abrangendo as terras
da antiga “Raia ”.
O nome “Vilas Verdes” ficou imortalizado, pois a estrada que passava
pelo local tomou seu nome e era única estrada para Pinhal e até, hoje, existe
como estrada secundária.
1860
Atendendo a solicitação da população, o governo provincial elevou a
Capela Curada de Pinhal à categoria de Freguesia em 14/03/1860. Vimos nos
capítulos anteriores, que Capela Curada é a que tinha um cura, um padre
residente, e responsável por ela. Mas a Capela dependia das decisões da
Freguesia de Mogi Guaçu e São João.
Elevando a Freguesia – queria dizer que nossa Capela não dependia
mais de Mogi Guaçu, era independente e se entendia diretamente com a
diocese em São Paulo. Já era um avanço para nós.
Também em 1860 aqui chegou outra família que marcaria época em
Pinhal. Eram primos em segundo grau de Romualdo de Souza Brito, pois o pai
deste era irmão da avó do patriarca da família que chegava, José Maria Leite
de Souza. Os parentes por parte de mãe que eram os mesmos de Romualdo,
seguiram sempre juntos, como vimos nos primeiros capítulos e se mudaram de
São Paulo para Mogi das Cruzes e, muitos anos depois, foram em direção do
Caminho do Anhanguera, na região de Bragança e Amparo. O nome “Leite”
adveio do casamento de sua mãe com Serafim Leite de Siqueira ainda em
Mogi das Cruzes, onde nasceu José Maria Leite de Souza.
Em Pinhal comprou terras na região da Jangada do Campo Redondo, da
Boa Vista.


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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Ele e seus dependentes tomaram parte ativa da vida de Pinhal,
montaram a primeira usina de açúcar da região e nos deram um ilustre prefeito,
já em nossos dias, o saudoso Hélio Leite.
Os fazendeiros que foram chegando por essa época eram mais
abastados e foram aumentando o cabedal de escravos na região, até, então,
pouco numerosos. Aumentava substancialmente a capacidade de trabalho e,
conseqüentemente, de progresso para Pinhal...
Engenho de açúcar Henry Koster, 1808/1815


O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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CAPÍTULO XI
AS PRIMEIRAS FAMÍLIAS N.2


Esta autora achou tão interessantes os relatos que encontrou num velho
almanaque, que resolveu transcreve-los na íntegra, para termos uma idéia
mais real como era a vida naquela época. Para isso nada melhor que a história
contada por quem a viveu. Vamos lá:
1865
José Bernardes
A Chácara de Dona Luciana
Foi por volta de 1865, que o precursor dos povoadores mineiros de
nossa terra, José Joaquim Bernardes de Oliveira, passou por outras mãos a
sua propriedade agrícola no então município de São Caetano da Vargem
Grande, hoje Brasópolis, e veio lançar os fundamentos da magnífica Fazenda
“São José“, que como célula econômica, quatro ou cinco anos após,
constituía sólido e perfeito embasamento para a formação de um novo núcleo
urbano, visto como nos domínios do filho de São João Del Rey, nada,
absolutamente nada falava. A fazenda tinha vida própria. Ali se encontravam
obreiros de toda categoria, além do braço escravo, que cuidava do excelente
cafezal e das mais variadas culturas agrícolas. Contava-se, entre aqueles
outros trabalhadores, o ferreiro, o funileiro, o sapateiro, o alfaiate, o marceneiro,
o carpinteiro, o serralheiro, o barbeiro e muitos outros titulares de profissões
livres, inclusive alguns construtores de casa. Praticava-se também, a música
de pequena banda, sendo notória a habilidade, a inteligência com que alguns
pretos manejavam os seus instrumentos.
Mas José Bernardes pouco viveu em terras paulistas. Sete anos mais
tarde, ainda pleno de virilidade, pois mal atingira os 45, foi arrancado à sua vida
exuberante de empreendimentos, deixando viúva à culta senhora Luciana
Cândida de Magalhães Oliveira, com berço na família Pereira de Magalhães,
de Baipendi. De seu dinâmico e prematuramente morto companheiro, há com
cunho oficial, a única lembrança de duas ou três placas na pequena rua que
nasce na Praça da Independência e morre na Visconde do Rio Branco,
margeando a principal artéria da cidade. É de crer-se que a quase totalidade da
geração olhe para o simples nome de “José Bernardes”’e ignore, por completo,
quem foi aquele por cujo personativo se menciona a ruazinha.
Morto o latifundiário de envergadura, sua esposa transferiu ao Barão de
Mota Paes a Fazenda “São José “e adquiriu, mais nas proximidades da sede
do município, vasta extensão de agricultura”, que apesar de sua mera
designação de Chácara, compreendia, além da área atualmente de
propriedade do Capitão Segisfredo Rosas, a zona pela qual hoje se distende a
Vila Monte Negro e ainda a em que se localizam diversos sítios e fazendas
adjacentes. Sabe-se que faziam parte da “chácara”, entre outras, as grandes
glebas outrora pertencentes ao Velho Vinhais e ao saudoso Gabriel Novaes,
assim como a antiga chácara de Ludovico de Siqueira, a de Dona Amélia, o
imóvel agora pertencente a Leônidas Mendes e o Vila Verdes.
Instalada na “chácara”, cuja casa grande se erguia mais para dentro do
perímetro onde hoje se vê a aprazível residência do Capitão Segisfredo, teve
Dona Luciana a esplêndida faculdade de transformar o seu afazendado lar em
elegante e apurado local de reuniões sociais. Os muitos dotes de sua

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personalidade propiciaram, naturalmente, a efetivação daquilo que se tornou,
depois, a encantadora característica de uma sociedade em fase de formação.
Em tais reuniões, com amigos e admiradores da casa, havia o renovado ensejo
de se expandirem os corações nas simples e mútuas provas de afeto, tanto
como a boa e contínua oportunidade de encontrarem os freqüentadores na
medida do possível, tudo quanto pudesse deleitar o espírito.
Durante quase todo o vinteno de 1872 a 1892, a “chácara” de Dona
Luciana exerceu essa influência na vida social pinhalense, sendo mesmo o
lugar preferido para hospedagem de ilustres pessoas vindas de fora.
Dizia-se, “vir a Pinhal, sem comparecer às reuniões presididas por Dona
Luciana, era com ir a Roma sem ver o Papa”.
Por anos a fio, cotidianamente, ao entardecer, moças e moços ligados
às melhores castas da cidade, rumavam para os acolhedores domínios da
virtuosa senhora, a fim de ali se entreterem em amenos serões, nos quais,
cordial palestra se alternava com cantos e danças. Em períodos mais
espaçados, ali também se apresentavam fazendeiros das imediações, trazendo
alegre concurso de toda a parentela doméstica, que se fazia acompanhar de
mucamas e moleques.
Dentre os inúmeros afeiçoados da “chácara” de Dona Luciana, nunca
era demais o Dr. Paulino Cirilo Leão da Silveira, clínico de nomeada, e exímio
musicista; o Cel. Amado Soares de Abreu Caiuby, sempre dado à conversação
de prol e à arte de canto; o Major Afonso Bombarda e o afável João Bastos,
ambos portadores de afidalgas maneiras, não desmentindo as melhores
qualidades da gente lusa; a Teodoro “Matinada”, carioca da gema, Franco de
nome, mas consagrado na cidade pelo simpático apelido, de tal modo era
esfuziante, sendo o seu temperamento a toda hora demonstrado através de
gostosíssimas risadas, sem, contudo, desdobrar-se em excessos, pois Teodoro
Franco se impunha graça à finura do trato, de par com a linha com se vestia,
notando-se logo a sobriedade do talhe de seus ternos, invariavelmente bem
passados. Se não tivesse morrido muito antes que sua filha se casasse com o
professor com o professor Lellis, poderia dizer-se que o Teodoro Franco
transmitiria ao genro esse cuidado no trajar.
Os irmãos Luciano Teixeira e Joaquim Teodoro Teixeira este último
conhecido por “Teixeirinha”, perfeito homem de salões que constantemente
trazia de Campinas as novidades em passos de mazurka, estilo de valsa,
figuras de “schottisk” e polkas de efeito. Os irmãos Teixeira singularizavam-se
pela jovialidade infatigável, dados como eram às coisas facetas, sendo disso
padrão inofensivo, e espirituoso gracejador que, toda a vida, foi o nosso
estimado José Olímpio, o ardoroso “pinhalense”Juca.
Possuidor de terras de cultura confinantes com as da “chácara”, Carlos
Leopoldo de Araújo Cunha, de principesco nome e não menos nobre barba
preta, também não precisava servir-se do protocolo, para estar presente em
casa de Dona Luciana. Vezes sem conta, o descendente do marquês de
Pombal valeu-se da contigüidade dos cafezais e continuidade dos laços
afetivos, para fruir do amável trato da vizinha.
Costumavam-se visitar D. Luciana, em caráter de ligeira cerimônia, a
baronesa de Cintra, especialmente vinda de Mogi-Mirim; o Barão de Mota
Paes, amizade que já datava dos velhos tempos de Minas; o cel. Eduardo
Teixeira, elegante na sua roupa de brim pardo, com a qual se ajustava uma

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
33
capa branca própria para passeios campestres; o capitão Joaquim Tomaz de
Oliveira Tito, cuja esposa, D. Felícia, criatura em extremo bondosa, levara à pia
batismal numerosas crianças de lares amigos e aparentados, e, por esse
motivo, tinha o geral tratamento de “madrinha Felícia”; o comendador João
Elisário de Carvalho Monte Negro, de austera figura e gestos reservados, o
que, no entanto, não o impedia de oferecer convívio assaz agradável; o
fazendeiro Francisco Pinto da Fonseca, homem rural de destacados atributos;
e, para não alongar as citações, o padre José Daniel de Carvalho Monte Negro,
vigário da paróquia, a quem a gente simples chamava de “Doutor Padre”, visto
fazer jus ao título, como forte em Teologia. Esse sacerdote, irmão do
comendador, morava numa casa que abrangia todo o espaço aonde, mais
tarde, vieram residir as famílias do cel.Joaquim Vergueiro e dona Inacinha
Ribeiro. O vigário Monte Negro só usava batina, quando no exercício do
ministério, em obediência ao ritual, dentro e fora da igreja.
Ordinariamente, porém, andava em vestes civis e, nos atos de
cerimônias não eclesiásticas, apresentava-se metido na sobre-casaca...
Nos primeiros tempos da “chácara”, também lá iam ter quase todas as
tardes, madame Carlota e sua filha Ema, que o sotaque francês convertia em
Ëmá”, mãe e filha providas de requintado gosto para tudo quanto concernia a
modas e à cortesia social; a elas sucedeu, anos depois, nas visitas de praxes,
madame Fernanda, introdutora do piano em Pinhal.
O marido de madame Fernanda era estabelecido com casa comercial
moldada nos “magasins” de Paris, ocupando ela várias portas de frente a rua l5
de Novembro logo abaixo da residência do Dr. Zeca Vergueiro. Esses
franceses, como muitos outros dentre eles os Worms, os Baccarat, os Pioton,
que aqui se fixaram, haviam procurado o doce exílio da América, por não se
conformarem com o desfecho da guerra de 70. A anexação da Alsácia-Lorena
ao Reich de Bismak, afugentou os alsacianos Worms e o loreno Aléxis Noirez,
que, talvez, nos seus atuais 80 anos, seja o único representante da heróica
França em nosso meio no qual se entregou e com o qual se identificou,
estreitamente ligado à família Baraúna, em cujo seio se encontra há mais de
meio século. Cumpre salientar os méritos do boníssimo Aléxis que, como
farmacêutico, nesses últimos 20 anos nos, tem prestado excelentes serviços ao
Hospital “Francisco Rosas” havendo merecido da corporação que dirige, o
nosso “Hotel-Dieu”, as mais expressivas homenagens. Assim era a “chácara”
de dona Luciana. Mas em épocas diversas, Pinhal possuiu interessantíssimos
pontos de reuniões, dos quais participavam pessoas cuja recordação é um
dever, a fim de se fazer a boa, crônica da cidade. Essa crônica sempre foi rica
em episódios dignos de ser traduzidos para a história escrita”.
Após ler esses deliciosos relatos, fica-se com um sentimento
inexplicável, não se sabe se é saudade de um tempo que já foi... A casa de
Dona Luciana na atual Chácara dos Rosas, foi demolida, para construção de
uma nova. Sua residência na fazenda (hoje M.C.) que serviu de moradia ao
Barão de Mota Paes, foi demolida por descendentes do Barão, para fazer a
atual casa de pedra.
Nada mais resta, a não ser esses relatos e a placa na rua lateral do
G.PE.A. – Rua José Bernardes...

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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CAPÍTULO XII
COMENDADOR MONTE NEGRO – 1867 - N.1
Abrimos ala e colocamos tapete vermelho para entrar em nossa história,
um personagem muito especial: João Elisário de Carvalho Monte Negro.
Nasceu o Comendador Monte Negro na vila de Louzã, no Bispado de
Coimbra, em Portugal, aos 24/06/1824, sendo filho do médico Dr. Sebastião
José de Carvalho Monte Negro e de Maria Carolina Márcia de Souza Monteiro.
Seus pais sofreram grandes perdas em seu patrimônio, por se envolverem nas
lutas libertárias que se sucederam em Portugal, razão pela qual ele veio tentar
a sorte no Brasil.
Em 26/12/1840 saiu do porto de Lisboa, desembarcando no Rio do
Janeiro em 06/02/1841.
Iniciou sua vida, no Brasil, como caixeiro viajante, alcançando tamanho
êxito que ficou conhecido como o “rei dos viajantes”. Realizou sua primeira
viagem à província de São Paulo no ano de 1856.
Em 25/01/1867 comprou as terras do sítio “Palmeiras”, do Capitão
Joaquim José de Campos Silva e sua mulher, em território (na época) sob a
jurisdição de Espírito Santo do Pinhal. Pouco depois, em 06/02/1867, nessas
terras estabeleceu-se com 19 colonos portugueses, e fundou a colônia de Nova
Louzã, com trabalho livre e remunerado em plena época do regime da
escravidão no Brasil.

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Escreveu o “Regulamento” ou “Estatutos para a colônia de Nova Louzã”,
convidando todos os empregados da colônia para discutirem seus direitos e
obrigações. Seus avanços sociais foram notáveis, tanto na área de educação,
como da saúde.Um visitante da fazenda, fez o seguinte relato que
transcrevemos na íntegra:
“Esta fazenda situada a 2 ½ léguas (1 légua = quase 6 km) da Freguesia de
Espírito Santo do Pinhal, Município de Mogi-Mirim, foi comprada a 25 de janeiro
de 1867 pelo Comendador João Elisário de Carvalho Monte Negro, que para
ela veio a 06 de fevereiro do mesmo ano com 29 colonos portugueses. Este
núcleo de colonização elevou-se e hoje conta 80 colonos.
Vê-se construída uma grande habitação, e outras muitas casas para
residência do pessoal da colônia, paióis, e outros cômodos, Existem dois
moinhos, grande olaria de telhas e tijolos, abobada como as da Europa; casa e
máquina de descaroçar e enfardar algodão; açudes e bicas para conduzir água
à máquina; água suficiente encanada para as hortas e cozinha, com esgotos
para as já servidas saírem em direção ao ribeirão vizinho.
O café é beneficiado nos moinhos e monjolos. Esses moinhos e
monjolos eram tocados à água, e as melhores fazendas os possuíam. Não
contente com isso, introduziu o comendador, a primeira máquina de beneficiar
café a vapor e os primeiros terreiros forrados de tijolos, de Pinhal.
A maior cultura da fazenda depois da do café, é a do algodão, sendo
fiado e tecido para os misteres e consumo da colônia, e o restante é consumido
pelos vizinhos. De onde se vê que a indústria não é esquecida nesta fazenda
modelo.
Nela planta-se cereais, e cultiva-se a vinha; pretendendo o proprietário,
que já possui uns 5.000 pés de parreiras, em breve obter algumas dezenas de
pipas de vinho.
O azeite, o sabão e outros gêneros industriais são também fabricados
neste estabelecimento; havendo diversas oficinas, como sejam de alfaiates,
carpinteiros, ferreiros, sapateiros etc.
O sistema de pagamento é o de salário mensal.
O diretor da colônia, incansável para o bem estar dos seus empregados,
tem na fazenda um zeloso médico, e bem montada farmácia.
O ensino primário não foi esquecido por ele: há uma escola noturna, que
funciona nas segundas, quartas e sextas-feiras, sendo freqüentada não só
pelos menores, como também pelos adultos, que bem ou mal já lêem e
escrevem.
Todos os misteres para a escola, como livros, papel, etc., ali são
encontrados.
Tal é em resumo a colônia Nova Louzã.
Tão famosa ficou a fazenda Nova Louzã, que recebeu em 16/09/1878 a
visita de S.M. o Imperador D. Pedro II e sua comitiva.
Transcrevemos na íntegra a descrição dos fatos feita por Tomaz
Pacheco Lessa no Jornal de Caldas, em 1878, e transcrita por nosso
historiador Roberto Vasconcelos Martins:
No dia 16 desse mês de setembro, às 7 horas e 45 minutos da manhã, partiu
D. Pedro II de Mogi-Mirim em companhia do conde de Iguassú e outras
pessoas de sua comitiva.

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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Às 8 horas, chegou ao “campo do Guassú”, no ponto onde a linha férrea
atravessa a estrada da então vila do Pinhal, e ali, onde já se achava à sua
espera o comendador Monte-Negro, desembarcou, passando para um troly
coberto, no qual fez o percurso de duas léguas até a histórica fazenda,
chegando a mesma pouco antes das 10 horas e acompanhando-os as demais
pessoas em outros sete trolys.
Fácil é imaginar que o povo dos lugares vizinhos concorrera numerosa a
“Nova Louzã”. Entre pinhalenses que ali estiveram, menciona o desaparecido
semanário da Caldas os srs. Capitães José Ribeiro de Motta Paes
(posteriormente Barão de Mota Paes), Damaso da Motta Paes e Joaquim
Thomaz de Oliveira Tito, além dos comerciantes Joaquim de Oliveira Vergueiro
Filho e Theodoro Franco e dos srs. Ivo José da Cunha, João da Rocha Mattos
e tenente Segisfredo da Motta Paes.
Deixemos falar o noticiarista:
“A colônia apresentava um lindíssimo aspecto. Dava entrada para a
mesma um bonito arco de arbustos e flores, tendo aos lados duas bandeirolas
nacionais; seguia-se dali por uma rua orlada de palmeiras e mastros
embandeirados até a frente das casas”, onde terminava a dita rua por dois
arcos também de arbustos e flores em festões, dos quais se alongavam à
esquerda e à direita duas linhas de palmeiras e mastros com bandeiras
nacionais e portuguesas em toda a frente do extenso terreiro.
No primeiro degrau da escada da casa da diretoria erguia-se um lindo
arco de madeira pintada com as cores nacionais e em cuja cimalha se lia a
inscrição – A D. Pedro II, coroada com a bandeira brasileira e cercada de
graciosos festões de flores naturais pendentes no centro do mesmo arco. Do
alto da porta arqueada e principal da casa, também pendiam outros festões,
apoiados nos capitéis dos portais, e as janelas da frente estavam ornadas de
colchas de damasco de cores.
Tão agradável era a perspectiva apresentada pelo conjunto dessas
belezas artificiais e naturais, com os laranjais cobertos de pomos doirados, as
verdejantes hortas aos lados das casas, a grande vinha que começava a
revestir-se de verdes ramos, e o cafezal coroando a grande encosta que com
sua comprida rua de laranjeiras e flores fica atrás das casas, que o Exmo.sr.
Presidente da Província exclamou:
Nunca vi um estabelecimento agrícola tão bem preparado, tão risonho!
“Descendo do troly, D. Pedro seguiu para a “casa da diretoria”, passando por
entre duas alas’ cuidadosa,ente formada pelos empregados da colônia”,ficando
à direita as famílias e à esquerda os colonos solteiros, ouvindo-se então
“calorosos e entusiásticos vivas e subindo aos ares numerosos girândolas de
foguetes”.
Em outra ocasião, o Sr. Francisco Quirino dos Santos deixou registrada
em cartas a sua admiração pelo respeito que os colonos tinham pelo
Comendador. Pediam-lhe a benção, beijavam-lhe a mão e a maioria o
chamava de padrinho, por ter batizado quase todos da fazenda. Ao fim de uma
tarde de domingo, foram pedir-lhe ordem para fazer um baile na sala. O baile
foi organizado por eles, que tocavam, cantavam e dançavam um animado “viravira”
português. Todos participaram, as visitas e o Comendador.

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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CAPÍTULO XIII
COMENDADOR MONTE NEGRO N.2
VIGÁRIO MONTE NEGRO
José Elisário de Carvalho Monte Negro recebera em Portugal sua
comenda do rei, por seus serviços de benemerência em Louzã e na Vila de
Poiares em Portugal. Ele trouxe da Europa para Pinhal pensamentos
progressistas e avançados para sua época. Com sua mente criativa e
inovadora, publicou na “Gazeta de Mogi Mirim”, em 1879, suas idéias sobre a
necessidade da construção de um ramal ferroviário que possibilitasse a ligação
de Espírito Santo do Pinhal à rede ferroviária da Companhia Mogiana. Isto 10
anos antes que sua idéia se concretizasse. Para conseguir esse feito, envolveu
outros vultos de projeção da época, como o ilustre médico Dr. Francisco
Antônio Rosas, que muito trabalhou para esse fim.
Os 90 colonos que trouxe de Portugal, gente da melhor qualidade,
deram origem a troncos de grandes famílias pinhalenses. Entre outras, os
Antunes, Costa, Coelho, Martins, Batista, Tavares, Soares e muitas outras.

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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Tão grande era a sua preocupação com Pinhal, que mandou fazer 10
álbuns com todas as coisas relevantes da cidade e distribuiu por São Paulo e
Rio de Janeiro para ver se captava interessados em investir em Pinhal.
Entre os que acompanharam o Comendador Monte Negro, estava a
notável figura de seu irmão, o Dr.JOSÉ DE CARVALHO MONTE NEGRO, o
Vigário Monte Negro, nascido em 30/04/1827 na Vila de Louzã, no bispado de
Coimbra, falecido em Espírito Santo de Pinhal, aos 16/06/1888.
Estudou na Universidade de Coimbra, recebendo o grau de bacharel em
teologia no ano de 1851; passou por São Paulo em 1870 e, já em 1873, era
capelão da Colônia de Nova Louzã, onde rezava missa aos domingos e dias
santificados e fazia casamentos e batizados.
Foi nomeado Vigário Encomendado de Espírito Santo do Pinhal em
23/10/1878. Permaneceu à frente da Paróquia de Espírito Santo do Pinhal, até
1888, ano de sua morte.
Morou ao lado da Igreja Matriz na Praça da Independência, onde, mais
tarde, viria a residir o Coronel Joaquim Vergueiro e dona Inacinha e sua grande
família, onde se encontra a Loja Cem.
Era muito elegante, só usava roupas sacerdotais quando no exercício de
suas funções religiosas, fato inusitado na época. Normalmente usava vestes
civis e, em atos de cerimônia não eclesiástica, apresentava-se sempre de
sobrecasaca.
Foi muito querido pelo povo que o chamava de “doutor padre”, pela sua
formação superior. Depois de sua morte, a congregação angariou e mandou
pintar seu quadro, baseado numa foto sua, pelo famoso pintor Almeida Junior,
que antes se encontrava na sacristia da Igreja Matriz de nossa cidade.
Assim como o irmão era o vigário Monte Negro um convicto
abolicionista, com profundo senso de respeito às liberdades e à individualidade
humana.
Sofreu o Comendador grande baque com a morte de seu irmão mais
novo e, também, por motivos econômicos, vendeu a fazenda e fixou residência
permanente em Espírito Santo do Pinhal.
Construiu o belíssimo chalé Monte Negro e para lá se mudou. Esta
autora guarda na lembrança o impacto que teve ao ver pela primeira vez o
chalé, há quarenta anos atrás, sem aquela arvore que hoje o esconde, todo
pintado de rosa e branco. Era lindíssimo...
Fundou nesse ano (1888), a Vila Monte Negro. Juntamente com o Dr.
Francisco Antônio Rosas lança a idéia da construção de um hospital em Pinhal
que, a princípio, pareceu para muitos uma utopia. Porém, logo depois, houve
uma grande adesão ao projeto.
Construíram, então, um comitê que deveria levar a cabo a construção do
“Hospital dos Doentes Pobres”, sendo essa denominação inicial. Entre outros,
destacavam-se o coronel Eduardo Teixeira e Casemiro Teixeira Rios, que
doaram o terreno para o hospital, desmembrado de sua chácara no local. Daí o
nome da rua do hospital: Rua Teixeira Rios.
Em 25/03/1893, é dado início à construção do “Hospital da Santa Casa
de Misericórdia” de Pinhal, data que assinala o lançamento da pedra
fundamental.
Em 1894, o comendador realizou uma viagem à Europa, da qual
retornou no ano seguinte, vindo a ocupar o cargo de Procurador Geral e

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
40
Tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia de Espírito Santo do Pinhal, cargo
que fora ocupado pelo Dr. Francisco Antônio Rosas, que falecera em
03/09/1895.
Embora sendo de nacionalidade portuguesa, assumiu o cargo de
Presidente Honorário da “Societá Italiana de Mutuo Soccorso Dante Alighieri”
de Espírito Santo do Pinhal (Sociedade Italiana de Mútuo Socorro Dante
Alighieri) .
Em 08/12/1898, o Comendador Monte Negro assiste à inauguração do
Hospital que, por sugestão recebe a denominação de: “Hospital Francisco
Rosas”, numa justa homenagem a esse grande benfeitor e defensor da causa
pinhalense, que falecera sem conhecer a obra por que tanto trabalhara.
Monte Negro veio a falecer com quase 91 anos de idade, solteiro, aos
08/05/1915 em Espírito Santo do Pinhal.
Encontra-se sepultado no cemitério municipal, num túmulo simples,
conforme pediu em seu testamento, e sua memória merece ser cultuada por
todas as gerações de pinhalenses. Até o fim de seus dias, foi participante e
batalhador pelas causas pinhalenses e humanitárias em geral.
Poucas cidades brasileiras tiveram o privilégio de contar entre seus
primeiros moradores cidadãos do porte moral dos irmãos Monte Negro! Um
exemplo atualíssimo a ser seguido pelos homens públicos do nosso país...

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
41
CAPÍTULO XIV
BARÃO DE MOTTA PAES N.1
Barão de Mota Paes e a Baronesa Maria Cândida
Nesses quase 20 anos desde sua fundação, Pinhal passava por
profundas modificações. Aquela vilazinha essencialmente rural transformava-se
passando muitos de seus moradores a vir morar na cidade, fazendo boas
casas, para suas numerosas famílias. Desde 1862, a cidade havia conseguido
que o governo provincial para cá mandasse dois professores, um para classe
masculina e outro para feminina. Estavam as meninas começando a se
alfabetizar, coisa impensada até então. Não que elas fossem seguir estudando,
mas o mínimo necessário para lerem as receitas de culinária e o livro de rezas.
No tempo de Romualdo, a agricultura era de subsistência, sobrando um
pouco para trocas necessárias. Não havia grandes diferenças entre patrões e
empregados. Todos trabalhavam ombro a ombro e dançavam juntos nos bailes
nas tulhas. Colonizada por paulistas, que eram acostumados com vida muito
simples, suas vidas transcorreram sempre nas fazendas, com a família toda na
lida dos campos.
A lida continuava nos campos, mas, com a chegada dos mineiros mais
abastados por anos nos caminhos do ouro, a agricultura se eletrizava. Os
engenhos passavam a produzir açúcar de exportação para a Europa. O café,
que explodia no Vale do Paraíba, já dava aqui seus primeiros passos e a
agricultura de subsistência dava lugar à monocultura para exportação.
O capital se concentrava em poucas mãos, mas precisava de muita
mão-de-obra para gerar essa riqueza. Aumentava, então, a escravatura e a
população, minoritária branca e rica, fechou-se na sua importância,
aumentando as diferenças sociais. Mudavam as coisas em Espírito Santo do
Pinhal...
1868- A população de Pinhal crescera tanto, que foi necessário requerer
provisão para a construção do 2º cemitério mais longe que o primeiro, que
ficava onde é hoje o prédio da Prefeitura Municipal, já rodeado pelo casario. A
maioria dos defuntos era levado em rede suspensa por um pau, e carregada
pelas pessoas. Eram enterrados simplesmente no chão bem fundo, a sete
palmos bem socados, para não serem desenterrados por animais.

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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Foi escolhido um lugar bem fora do perímetro urbano, onde hoje se
encontra a igreja de São Benedito. A provisão foi conferida no dia 04/08/1868.
Ano de 1868 – Foi por essa época que chega a Pinhal uma família que
seria de muita importância e influência para a nossa terra. Com toda pompa e
em circunstâncias especiais entra em nossa história, José Ribeiro da Motta
Paes, o Barão de Motta Paes. Vinha ele também dos caminhos do ouro, da
cidade mineira de Conceição dos Ouros. A família Motta veio de Portugal, no
século XVI ou XVII. Como nessa época não havia cidade no interior do país,
estabeleceu-se no litoral, em Vila Bela, hoje Ilha Bela. Já começara aí o cultivo
da cana para produção de açúcar e aguardente. A ilha era, na época, um
centro de produção de açúcar, pela facilidade de exportação para a Europa
pelo porto de São Sebastião.
Um atual descendente do Barão de Motta Paes, José de Campos Salles,
cedeu-nos gentilmente alguns dados da genealogia da família.
“Gonçalo da Motta Bittencourt é o mais remoto antepassado por linha
varonil que se conhece da família de Motta Paes. Era natural da Ilha de São
Sebastião (Ilha Bela) onde vivia em meados dos seiscentos e, aí, casou-se
com Catarina Páscoa de Oliveira, também natural da ilha e descendente dos
primeiros povoadores vindos de São Paulo, oriundos do famoso casal João
Ramalho e Bartira. João Ramalho foi, com razão, considerado patriarca dos
paulistas por ter casado com quase todas as filhas dos caciques influentes e de
ter dado origem à maioria dos troncos de antigas famílias da velha cepa,
inclusive a de Romualdo de Souza Brito.Dois dos filhos de Gonçalo Motta
Bittencourt casaram com duas irmãs, naturais de Guaratinguetá e para lá se
mudaram; foram tronco da família Motta Paes, que povoou essa região do Vale
do Paraíba. Atualmente tanto no Vale como em Pinhal, existem poucos nomes
Motta, por serem seus descendentes, em sua maioria, de linha feminina”.
Como vimos, passados alguns anos, já havia cidades no Vale do
Paraíba, fomentada pela descoberta do ouro. O movimento econômico agora
caminhava naquela direção. O neto de um dos irmãos vindos da Ilha, Joaquim
da Motta Paes, nascera em Lorena em 1750, cidade estratégica para quem
vinha do Rio e passava para Minas, pela passagem do “Cruzeiro”.
Recentemente descoberta. Ele seria avô do Barão. Ali, se casou com Quitéria
Leme Cabral e teve dezenove filhos. Seu filho Félix da Motta Paes, que seria
pai do Barão, nasceu em Lorena em 1794. Joaquim tinha engenho e produzia
40 barris de aguardente por ano. Mas a febre de ouro contagiou Joaquim.
Vendeu seus bens e se mudou para Pouso Alto, cidade sul mineira. Com
o nome bem diz, era localizada em altas e frias montanhas nas serras do ouro.
Félix tinha então cinco anos.
Ali, Félix casou-se com dona Lucinda Maria de Jesus Ribeiro e resolveu,
então, tentar a sorte em outro lugar.
Adquiriu terras onde o Ribeirão dos Ouros encontra o Sapucaí-Mirim, no
Vale do Sapucaí. Fundou aí a cidade de Conceição dos Ouros. Em sua
fazenda Chapada, nesta cidade criaram seus nove filhos, os irmãos Motta. Seu
terceiro filho foi José Ribeiro de Motta Paes, nasceu no dia 02-01-1828.
Durvalino Leme, filho adotivo de um dos irmãos Motta narra em seu livro
“Memórias de um Pinhalense”, passagens da mocidade do Barão na Fazenda
Chapada, contadas por seu pai, e algumas passagens vividas pelo próprio
Durvalino Leme, quando criança na Fazenda São José, já em Pinhal.

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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Como todo fazendeiro mineiro de projeção, Félix da Motta mandava a
produção de suas fazendas diretamente para o porto, para os centros
consumidores, Rio ou Europa e ninguém de maior confiança do que seus filhos
para essa incumbência. Não sendo possível o tráfego de veículos (carros de
boi) entre a fazenda e os portos de Ubatuba e São Sebastião, o transporte era
processado por intermédio de tropas de mulas. Como foi dito no capítulo
anterior, a tropa ia carregada com cereais, fumo, queijos, rapadura, mantas de
banha salgada etc... Voltava carregado de sal, querosene, bacalhau, enfim
tudo o que a fazenda não produzisse. Essas viagens para o litoral de São
Paulo, em geral, duravam um mês.
As fases críticas dessas viagens ocorriam nas subidas e descidas das
serras da Mantiqueira e do Mar, principalmente sob o rigor do frio ou de chuvas
intensas. Um homem podia “encarangar”, principalmente escravo descalço. Era
preciso lhe dar umas pequenas chicotadas para que ele “dançasse” e
recuperasse a circulação...
Cada tropa compunha-se de 12 animais e a equipe de pessoas que
dirigia era formada de cinco ou mais elementos, arrieiros, tocadores,
cozinheiros e um chefe. Cada um ou dois irmãos Motta comandavam uma
tropa. Elas seguiam uma atrás da outra, em grandes comboios. Casa
proprietário de tropa tinha o cuidado especial de ornamentar seus animais com
uma “cabeçada “feita de prata”. A madrinha da tropa tinha sua cabeçada
circundada por cincerros, que eram pequenos sinos para que os outros animais
a acompanhassem, pois era a guia mais experiente. O barulho que faziam
ouvia-se ao longe e avisavam os rancheiros que uma tropa vinha chegando.
Existiam aqueles que, pelo barulho das campainhas. Distinguia de quem era a
tropa.
Mas grande pobreza se abatera sobre essas cidades com o término das
minerações. Notícias do progresso do café no Vale do Paraíba e do açúcar no
interior chegavam até lá. Seus primos, José Bernardes de Oliveira e sua
mulher Luciana (capítulo XI), vindos da mesma região de Minas, já aqui se
achavam desde 1865 e já tinham dado notícias de nossa terra.
Moços e cheios de energia, como eram irmãos Motta, resolveram
conhecer esses lugares. O clima ameno de Pinhal e suas terras suavemente
onduladas logo os atraíram. Em 1868 compraram aqui suas primeiras terras.
Mas só vieram definitivamente em 1872, quando um fato ocorrido os desligou
definitivamente de Conceição dos Ouros, como veremos no próximo capítulo...
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias

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Engenho de açúcar e aguardente dos anos setecentos em Ilha Bela
O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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CAPÍTULO XV
BARÃO DE MOTTA PAES N.2
Morre Romualdo de Souza Brito.
1869 – Em 16/04/1869, Pinhal fica de luto! Falecera aos 77 anos,
Romualdo de Souza Brito, seu fundador, orientador e administrador dos
primeiros tempos!
“Quando tudo parecia perdido e avizinhava-se o caos, ele conduz os
homens a se unirem, em paz sem derramamento de sangue, em espírito de
conciliação”.
Ele deu ao povoado nascente o seu cunho de religiosidade que, até
hoje, transparece no nome da cidade e na vocação religiosa de seu povo. Ele
forneceu elemento material necessário no momento em que se fez necessário.
Ele traçou os primeiros rumos do povoado dentro da paz, da ordem, da
integridade e, quando viu que sua “criação” já caminhava sozinha, retirou-se
modestamente.
Por esse motivo, não lhe deram as honras merecidas. Não foi registrado
nem o lugar de seu sepultamento, não se sabe se na Igreja ou no segundo
cemitério do Largo São Benedito.
Roberto Vasconcelos Martins, o grande pesquisador e historiador de
nossos tempos, batalhou em vão para que seu nome fosse dado à Praça onde
ele teve a inspiração divina de fundar a nossa terra, hoje com o nome neutro de
“Praça da Independência”.
Nada mais justo que, em sua gloriosa memória, fosse esse nome
trocado (e fica sugestão aos nobres vereadores) por “Praça Romualdo de
Souza Brito!”
Enquanto isso, em Conceição dos Ouros, as coisas estavam mudando.
Mudando para pior. Como dissemos no último artigo, grande pobreza se
abatera sobre cidades mineiras dos caminhos do ouro depois do término das
minerações.
Os irmãos Motta, procurando alternativas, compraram terras em Pinhal,
atraídos por seu bom clima e terras mais planas e agricultáveis.
Compraram suas primeiras fazendas já a partir de 1868. Ficaram
divididos entre as suas cidades até que, em 1872, morre o pai, Major Felix da
Motta Paes. O Major Felix foi patriarca, protetor e fundador do povoado de
Conceição dos Ouros. Exerceu forte liderança político-econômica, continuada
por seus filhos e netos. Com sua morte, seus filhos mudaram-se
definitivamente para Pinhal. Mas não todos. Os dois primeiros viveram suas
vidas em Ouros. Os outros vieram para Pinhal. A primeira e última filha de
Felix, eram mulheres e os outros sete eram homens. A primeira filha – Maria
Cândida, a mais velha, deu duas de suas filhas em casamento a seus irmãos.
Era o hábito de casar com parentes, muito comum então, quer por serem as
famílias criadas juntas, com muito convívio, quer por não quererem repartir o
patrimônio, ou por serem os povoados muito pequenos, com poucas opções,
ou por todas essas causas. Esse hábito, através dos anos, criou problemas de
saúde para algumas famílias, pois se desconhecia o perigo da
consangüinidade. Uma de suas filhas também chamada de Maria Cândida
casou-se com seu tio José Ribeiro da Motta Paes e foi a Baronesa de Motta
Paes. Tinha 12 anos quando se casou e seu marido, o Barão, deu ordem para

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as mucamas brincarem com ela, pois ela levara suas bonecas, junto com o
enxoval. O segundo filho, Joaquim da Motta Paes, não veio para Pinhal. Por
suas atuações político-econômicas, foi agraciado pelo Império com o título de
Barão de Camanducaia. Certa vez foi a Itajubá, convidado para a cerimônia de
inauguração do cemitério da cidade. Na volta, perto de lá, em Piranguinho, foi
atingido por um raio e veio a falecer. Foi o primeiro a ser sepultado no cemitério
que viera inaugurar.O terceiro filho, que homenageamos nesse artigo,era
José Ribeiro da Motta Paes. Quando o então Capitão veio para Pinhal, já era
um homem feito, no apogeu de sua força e exerceu grande influência na vida
política e econômica da cidade, graças ás qualidades herdadas de seu pai.
O Barão teve cinco filhos com Maria Cândida, sua sobrinha, todos eles
nascidos em Ouros. Os dois primeiros, homens, faleceram recém-nascidos. A
terceira faleceu aos 13 anos. A quarta filha, Lucinda, casou-se com um médico
baiano, vindo há pouco tempo para Pinhal, o Dr. Carolino Ferreira da Silva.
Faleceu um ano depois sem deixar filhos.
Dr. Carolino casou-se então com a irmã, a quinta e última filha do Barão,
Maria Emiliana Ribeiro da Motta, sua ex-cunhada. Desse casamento, nasceram
cinco filhos, que foram os únicos herdeiros do Barão, posto que seus pais
faleceram antes do Barão. Mais detalhes nos próximos capítulos.
O quarto filho de Felix, Dâmaso da Motta Paes, casou-se com a
sobrinha, também filha de Maria Cândida, e veio para Pinhal. Não deixou filhos.
O quinto filho, Francisco da Motta Paes, veio para Pinhal e comprou a
Fazenda São José da viúva de José Bernardes (ver Capítulo XI). Pouco
depois, sentindo-se doente vendeu a fazenda para o irmão, o Barão. E voltou
para sua terra, aonde veio a falecer com 42 anos. Sua filha Francisca, casouse
com Antônio José Vilas Boas, em Ouros, e veio para Pinhal. Vilas Boas
trabalhava para o Barão e ficou muito rico, como veremos mais para frente.
Outra filha, Antonieta casou-se com João Mendes. São suas descendentes, há
pouco falecidas, Anita, Elza, Antonietinha e Hebe Mendes Vicente. Lucinda
casou-se com o Coronel Batista Novaes. São seus filhos Rubens Novaes,
Reny, Rute, Rachel e Rafael Novaes. Joaquim Motta Vilas Boas casou-se com
Dulce Vergueiro, tendo como filhas Adair e Ivete.
O sexto filho, Antônio, faleceu jovem.
O sétimo filho, Segisfredo da Motta Paes, veio para Pinhal e participou
da vida política e econômica da cidade. Viveu com Ana Rita de Palma com
quem teve 3 filhas. Ana Rita, separada do marido e com filhos para criar,
tocava viola em festas. Foi numa dessas festas que Ana Rita chamou a
atenção de Segisfredo, que por ela se apaixonou. Segisfredo se mudou para
Pinhal com Ana e os filhos desta. Aumentou aqui sua fortuna e diz-se que Ana
mandava vir vestidos e tecidos da França e tinha coleções de jóias e pedras
preciosas. Sua filha Lucinda casou-se com Francisco Rosas. A família Rosas
está até hoje entre nós, sendo conhecido o saudoso Adauto de Carvalho
Rosas.
O oitavo filho, Coronel Lúcio da Motta Paes, casou-se duas vezes com
duas sobrinhas, uma, filha de seu irmão o Barão de Camanducaia e outra, de
Francisco. Ele também veio para Pinhal. Seu filho José Ribeiro da Motta
Sobrinho, mais conhecido por Zequinha Lúcio foi atuante político em Pinhal,
vindo a ser prefeito de nossa cidade, tendo sido administrador de rara
competência no dizer de seus contemporâneos. Casou-se com sua prima

O Romance de Pinhal - A Saga de suas Famílias
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Josefina Motta, filha de José de Oliveira Motta, que a tirou do colégio com 15
anos, para se casar. Não tiveram filhos. Com sua longa vida, chegou até
nossos dias. Faleceu em 1975, com 95 anos, em sua Fazenda Aparecida, hoje
propriedade de Guilherme Ribeiro. Pouco antes de falecer, casou-se
novamente. O Coronel Lúcio teve também uma filha, Mariquinha, casada com
Aurélio Baldassari, cuja filha Zilda casou-se com Paulo Cordeiro Prestes, tendo
Leda, Sônia e Rosaik Prestes até hoje entre nós.
A nona filha, Felícia, casou-se com Joaquim Tomaz de Oliveira Tito, que,
com seus cunhados, também muito participou da vida de Pinhal, dando origem
à numerosa família Tito, até hoje entre nós.
Além desses filhos com Lucinda, Felix tinha, ainda, Inácio da Motta,
Margarida Motta, José Lino da Motta, Florência da Motta, Joaquim Mariano da
Motta e Francisca da Motta. Todos vieram para Pinhal. Desses irmãos do
Barão, os que não compraram terras, foram com ele trabalhar em suas
fazendas, ou com outros irmãos.
Nos próximos capítulos, veremos os acontecimentos marcantes de
nossa cidade, dos quais esses personagens participaram, contribuindo com
sua força de trabalho e decisão...

5 comentários:

  1. Oh! Por que não terminou? Fiquei na expectativa...
    Parabéns pelo relato.

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  2. O filho de Irene Tito, Antonio Gabriel Vieira, é meu Tio-bisavô. É uma honra fazer parte de uma família tão nobre assim. Parabéns a todos.

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  3. O filho de Irene Tito, Antonio Gabriel Vieira, é meu Tio-bisavô. É uma honra fazer parte de uma família tão nobre assim. Parabéns a todos.

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  4. Oh! Por que não terminou? Fiquei na expectativa...
    Parabéns pelo relato.

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  5. Augusto José Ribeiro...dos irmãos Ribeiro das Tres Fazendas...é meu avô...meu pai Pedro Augusto Ribeiro é filho com a terceira esposa Maria José Ribeiro...adorei ler esse relato relembrar historias que já ouvi antes...Carol Garbelotti

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